PUBLICIDADE Logística urbana, infraestrutura digital e segurança alimentam o nacionalismo de resultados promovido pelo Partido Comunista 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Entregadores de aplicativos à espera de pedido em rua de Pequim — Foto: Marcelo Ninio RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 13/07/2026 - 20:21 Modernidade e Nacionalismo Tecnológico Impulsionam Confiança na China A confiança dos chineses na modernidade é alimentada por avanços tecnológicos e infraestrutura digital, promovidos pelo Partido Comunista como parte de um nacionalismo de resultados. A transição da China de uma sociedade agrária para um cenário futurista é marcada pela conveniência cotidiana, onde a tecnologia facilita a vida urbana. Apesar de tensões geopolíticas, muitos chineses optam por permanecer no país devido à funcionalidade e segurança oferecidas, enquanto o governo sustenta sua ideologia com pragmatismo. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO De onde vem a confiança dos chineses? Quando eu fiz minha primeira visita a este país, no meio da década de 1980, só eram autorizadas as excursões conduzidas por guias oficiais, auxiliados por uma intérprete que traduzia tudo do mandarim para o português em sotaque lusitano. Os carros eram raros, as ruas eram um mar de bicicletas. Mesmo nas grandes cidades, ainda pairava um clima meio camponês. Para quem chegava daquele Brasil que saía da ditadura, era como entrar num fotograma do passado. Em todas as visitas guiadas, seja a comunas, hospitais ou atrações naturais, o tom era de exaltação ao modelo socialista chinês, e de como ele servira para produzir uma sociedade igualitária, que rompeu séculos de injustiças. Quarenta anos de crescimento econômico depois, o país é outro. Mas o Partido Comunista da China continua se apresentando como modelo de governança. A grande diferença é o argumento baseado em resultados práticos. A ideologia permanece, mas o destaque agora é a tecnologia. Visitantes estrangeiros não são mais levados a fazendas coletivas, mas a fábricas de carros elétricos, exibições de robôs e de inteligência artificial. Brasileiros que desembarcam pela primeira vez se sentem num cenário futurista, como os músicos que participaram de shows recentemente em Xangai. De uma sociedade agrária há 40 anos, quando 75% da população viviam em áreas rurais (hoje são 34%), a China virou um país digitalizado e de maioria urbana, em que as pessoas se acostumaram a obter soluções com a ponta dos dedos, na tela do celular. No contrato social não escrito, a contrapartida à falta de liberdade política, que se concentrava na prosperidade econômica, passou a incluir também alta tecnologia, ainda que a desigualdade tenha aumentado. Isso tem a ver com a pergunta que abre este texto. Em grande medida, a confiança dos chineses vem do conforto cotidiano oferecido pela tecnologia, seja nos superaplicativos, nos trens de alta velocidade ou em plataformas de inteligência artificial gratuitas. Não faz muito tempo, o sonho de estudantes chineses era sair, viver no exterior com a possibilidade de ficar, e obter um diploma de uma universidade do Ocidente, de preferência americana. Continua sendo uma ambição na classe média. Mas perdeu fôlego. Entre os motivos, estão as tensões geopolíticas, que tornaram o visto e o ambiente nos EUA menos favoráveis, além da melhora das universidades nacionais. Mas conversando com estudantes chineses, um motivo para ficar no país se repete: a vida é mais conveniente na China. Da segurança absoluta ao conforto proporcionado pela logística urbana, a sensação é de funcionalidade. Se antes predominava um complexo de inferioridade entre os chineses, hoje muitos estranham quando viajam para o exterior e não contam com as facilidades da vida digital a que estão habituados. O lado negativo do avanço tecnológico apontado pelos críticos, como a vigilância excessiva e a precarização do trabalho, é respondida pelo governo chinês com pragmatismo: há segurança e empregos. A ideologia continua presente no discurso do governo chinês, mas de forma mais sutil, acompanhada de um novo tipo de nacionalismo de resultados. Por vários motivos, para o Partido Comunista da China, modernidade é uma questão de conveniência.