Como saber que um brasileiro já foi para Harvard? Não se preocupe, ele vai te contar. É que nem quem faz crossfit. PUBLICIDADEEu fui para Harvard. Estudei primeira infância lá há alguns anos, por alguns dias. Meu trabalho final ia ser sobre paternidade. Me parecia que muitos dos problemas de pobreza e cuidados associados à primeira infância se deviam à sobrecarga da mãe solo. Queria saber como incluir o pai porque ele pode trazer renda, compartilhar os cuidados, ser uma nova referência. Até então eu não conhecia nenhuma política de paternidade positiva. Foi em Harvard que eu descobri que Harvard também não conhece.Nossa Constituição menciona maternidade três vezes, e paternidade nenhuma (há apenas licença-paternidade ou paternidade enquanto parentalidade, para ambos os gêneros) Foto: Njay/Adobe StockHá, claro, diversos aspectos positivos, ou até neutros, na alta de domicílios sem pais no Brasil. Pode refletir ganho de renda e independência das mulheres. Pode ser manifestação dos avanços da tecnologia: as videochamadas, o Pix, o Uber Flash permitem que pais não habitem juntos sem que a distância implique o abandono que implicava no passado.Mas há os aspectos negativos, principalmente quando o pai não está presente de forma alguma. Algumas dessas perdas são decorrentes de haver um cuidador a menos, mas algumas podem ser pela perda da complementaridade que um genitor masculino presente traz. PublicidadeÉ sabido que crianças pobres que crescem sem o pai são mais vulneráveis: ao desemprego, ao encarceramento, ao abandono dos estudos, à gravidez na adolescência. Mas nunca soubemos, e nunca vamos saber, o quanto de autosseleção existe nesses resultados. A situação ficou ruim porque o pai foi embora ou o pai foi embora porque a situação era ruim? Alguma outra variável influencia simultaneamente a realidade desse lar e a chance de o pai ir embora, como questões de saúde mental e vícios?O mais intrigante que aprendi na pouca literatura disponível é que pode haver uma questão cultural. Nos Estados Unidos, há mais crianças negras vivendo apenas com a mãe do que com mãe e pai ao mesmo tempo. Entre crianças descendentes de asiáticos, quase 90% vivem com os dois genitores, e o pai está presente mesmo para níveis baixos de renda.Vou aproveitar a Semana dos Pais para dar a minha tese de por que é difícil replicar o sucesso da Ásia: lá tem pai. Quase não existe mãe solo na China. Embora esteja mudando, casamento é a regra: 90% das mulheres entre 30 e 34 anos estavam casadas em 2020.Nossa Constituição menciona maternidade três vezes, e paternidade nenhuma (há apenas licença-paternidade ou paternidade enquanto parentalidade, para ambos os gêneros). Se pais são tão importantes para o capital humano, precisamos de uma política nacional de paternidade?
Opinião | Precisamos de uma política nacional de paternidade?
Crianças pobres que crescem sem o pai são mais vulneráveis: ao desemprego, ao encarceramento, ao abandono dos estudos, à gravidez na adolescência











