Apenas 1,6% dos que nascem entre os mais pobres obtêm diploma superior, revela Atlas da Mobilidade 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Apenas 1,6% dos que nascem entre os mais pobres obtêm diploma de curso superior — Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil O Brasil tem registrado avanços na escolarização de crianças e jovens, mas ainda insuficientes para transformar a realidade de um dos países mais desiguais do mundo, demonstram dados do mais recente Atlas da Mobilidade Social, elaborado pelo Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS), associado ao Prospera Lab. Na parcela dos 25% que nasceram nas famílias mais pobres do país, 48% estão na mesma faixa de renda ao chegar à vida adulta. Dos demais 52%, 74% ainda permanecem na metade de menor renda, apenas 8,3% chegam ao grupo dos 25% mais ricos — e um grupo ínfimo de 1,3% passa a integrar a parcela dos 10% com maior renda. “É necessário oferecer melhores oportunidades aos filhos das famílias mais pobres, como educação de qualidade e empregos com remuneração mais elevada”, afirma Fernando Veloso, diretor de pesquisa do IMDS. A educação, em particular, é a barreira preponderante. É consenso entre os economistas que se trata do melhor antídoto contra a desigualdade. No Brasil, porém, embora 47% dos que nascem no quarto mais pobre da população já terminem o ensino médio, apenas 1,6% obtém diploma universitário, principal passaporte para a ascensão social. Na classe média, 60% terminam o médio e 4,2% o superior. Entre os 25% mais ricos, as proporções são, respectivamente, 91% e 38%. Trata-se, segundo Veloso, de “grande obstáculo” para a mobilidade social. “A conclusão do ensino superior permite acesso a empregos com remuneração mais elevada e maiores oportunidades de ascensão na carreira, especialmente diante do avanço de novas tecnologias como inteligência artificial”, diz ele. A experiência internacional mostra que todos os países que conseguiram galgar estágios de desenvolvimento deram atenção especial à educação. Em especial, aos cursos das áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática, reunidas na sigla em inglês STEM. Um caso citado com frequência é a Coreia do Sul. Na década de 1980, o país tinha renda per capita de US$ 8,5 mil (a preços de 2011), mesmo nível do Brasil. No ano passado, segundo o Banco Mundial, a renda per capita brasileira estava em US$ 22,7 mil e a sul-coreana em US$ 64,2 mil. Na Coreia do Sul, 32% concluem cursos das áreas STEM. No Brasil, apenas 16%, segundo dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) relativos a 2023. O Atlas da Mobilidade Social permite quantificar a armadilha da renda média a que o Brasil continua preso. Por mais que governos ampliem gastos sociais, enquanto a qualidade do ensino não melhorar, a ascensão social continuará rarefeita. A educação é a principal engrenagem que permite a mobilidade entre gerações. Sem ela, perpetuam-se a pobreza endêmica e a estratificação. Como a população brasileira já está em estágio acelerado de envelhecimento, não há tempo a perder para qualificá-la.