Há algo curioso na forma como debatemos a educação brasileira. Sempre que um novo conjunto de indicadores é divulgado, o debate público se concentra na evolução das taxas de escolarização, na redução do analfabetismo e no cumprimento das metas educacionais. Os avanços são reais e merecem ser reconhecidos. Mas, ao mesmo tempo, essa forma de olhar para a educação produz um efeito colateral pouco percebido: transforma em invisíveis justamente aqueles que mais dependem da ação do Estado.

Os dados divulgados recentemente pela PNAD Contínua Educação (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) e pelo Censo Escolar, dois instrumentos de coleta de informações e dados educacionais, o primeiro desenvolvido pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e o segundo pelo Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), ilustram esse paradoxo. De um lado, eles mostram um país que ampliou o acesso à escola, reduziu o analfabetismo e elevou o nível médio de escolaridade da população. De outro, revelam que milhões de brasileiros continuam privados do direito à educação, enquanto a principal política pública destinada a reparar essa exclusão perde força ano após ano. As duas leituras são verdadeiras. O problema é que quase sempre escolhemos celebrar apenas a primeira.