Os rendimentos dos Treasuries subiram e as ações caíram nos EUA, com os investidores vendo uma inclinação do Fed em não agir antes das eleições de meio de mandato de novembro O Federal Reserve (Fed), sob o comando de Kevin Warsh, manteve ontem a taxa de juros básica americana na faixa de 3,50% a 3,75%, em uma decisão amplamente esperada, apesar de uma inflação persistentemente acima da meta de 2% e de preços de energia elevados, impulsionados pelas guerras na Ucrânia e no Irã. Dos 12 membros do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) do Fed, três votaram a favor de um aumento de 0,25 ponto percentual para enfrentar a pressão inflacionária. Em seu discurso sobre a decisão de política monetária, Warsh declarou que o comitê não tem “nenhuma tolerância” com uma inflação elevada e ressaltou o compromisso da autoridade monetária em trazer a inflação para a meta de 2%. Mas observou que não se pode resolver em nove semanas mais de cinco anos de inflação acima da meta. Warsh, que comandou sua segunda reunião de política monetária como presidente do Fed, foi nomeado pelo presidente Donald Trump, que, desde o seu retorno à Casa Branca, tem exercido forte pressão sobre o banco central americano para reduzir as taxas de juros em vez de aumentá-las. Contudo, o cenário externo altamente volátil, alimentado pelas ações intempestivas do próprio Trump, não permitem a Warsh afrouxar a política monetária, sob o risco de minar a credibilidade do Fed. Ontem, os preços do petróleo Brent subiram quase 8%, para acima de US$ 90 o barril, após Trump prometer dar uma “surra” no Irã em retaliação ao “ataque surpresa” contra as forças americanas, ameaçando uma escalada ainda maior do conflito no Oriente Médio. Manter o juro estável é o máximo que Warsh consegue entregar para Trump neste momento. Em um reconhecimento, o presidente declarou ontem que Warsh estava fazendo um trabalho fantástico. “Ele é um sujeito brilhante”, disse Trump a repórteres no Salão Oval, após o anúncio da decisão de política monetária. Embora alguns analistas tenham descrito a decisão de manutenção do juro como sendo “hawkish hold” (manutenção com viés de alta), por conta dos três votos dissidentes a favor de um aperto monetário, a reação dos mercados financeiros refletiu a expectativa de um Fed mais inclinado à manutenção nas próximas duas reuniões antes das eleições legislativas de meio de mandato, nas quais os republicanos buscarão manter a maioria nas duas casas do Congresso em um cenário desafiador de crescente preocupação dos americanos com os rumos da economia. No mercado de bônus, os rendimentos dos títulos do Tesouro americano de 30 anos - que acompanha as expectativas de inflação - saltaram para 5,20%, nível mais alto em dois meses, enquanto as ações registraram perdas significativas - o Dow Jones recuou 2,19%, o S&P 500, 1,52% e o Nasdaq, 1,74% -, com os operadores vendo a inclinação para uma abordagem mais lenta de aumento das taxas de juros como insuficiente para conter a inflação. O dólar caiu para seu nível mais baixo em quase uma semana. Aparentemente, os “bond vigilants” não ficaram impressionados pela afirmação de Warsh de que não hesitará em agir se a inflação permanecer elevada. Os participantes do mercado ainda interpretaram a repetida declaração de Warsh de que as condições monetárias nos EUA estão mais apertadas hoje, com a alta dos juros dos Treasuries desde a reunião de junho, como uma indicação de que ele não está com pressa em elevar as taxas de curto prazo que o Fed efetivamente controla. Durante a entrevista coletiva à imprensa, Warsh reafirmou sua decisão de eliminar o “forward guidance” de política monetária, argumentando que, no intervalo entre as duas últimas reuniões do Fed, o mercado reagiu a dados econômicos reais, “aprendendo a jogar com a bola e não com o juiz”. Ele rebateu as críticas de que a falta de “foward guidance” torne o processo de decisão mais opaco no Fed, o que elevaria o risco de a autoridade monetária pegar os mercados de surpresa. “Surpresas não são o objetivo”, afirmou Warsh. Ele sempre foi um crítico da postura de abertura de seus antecessores, afirmando que eles tornaram os mercados excessivamente dependentes das sinalizações do Fed sobre a direção das taxas de juros. É sintomático que a guinada por menos transparência e mais opacidade no processo decisório do Fed ocorra durante o governo de Trump, que é avesso à “accountability” (responsabilidade, prestação de contas) e que tem borrado cada vez mais as linhas que separam o público do privado. É preocupante que essa mudança ocorra num momento desafiador para o Fed, de prolongamento das guerras no Irã e na Ucrânia e de aumento significativo do endividamento público e privado nos EUA. Warsh deixou claro que a tendência é de mais opacidade. Até mesmo as entrevistas coletivas pós decisão de política monetária podem estar com os seus dias contatos. Ao ser questionado sobre o tema, Warsh se limitou a dizer que está comprometido com esse encontro com a imprensa “este ano”.