O estilo de comunicação extremamente sucinto de Kevin Warsh deixou investidores em dúvida sobre seu compromisso com o controle da inflação, aumentando a pressão para que o novo presidente do Federal Reserve sustente suas declarações com altas dos juros. Poucas horas depois da entrevista coletiva concedida por Warsh ontem, após a mais recente reunião de política monetária do Fed, que manteve o atual patamar de juros, analistas do banco JPMorgan Chase anteciparam de algum momento do segundo semestre de 2027 para dezembro deste ano sua previsão para uma alta dos juros. "Mais uma vez, ele não explicou como pretendia concretizar seu compromisso com o combate à inflação, afirmado de maneira tão enfática", escreveu Michael Feroli, do JPMorgan. "Acreditamos que isso aumentará a urgência para que os demais integrantes do comitê cumpram seu mandato." O desempenho de Warsh na entrevista ocorreu pouco depois de as autoridades do Fed decidirem, por 9 votos a 3, manter os juros inalterados, como fizeram durante todo o ano. A decisão era amplamente esperada e foi recebida com tranquilidade pelos investidores. Warsh, no entanto, não apresentou uma explicação clara para a medida nem afirmou que apoiaria uma alta dos juros caso a inflação não desacelerasse. 'Mercado desafia seu blefe' A reação do mercado foi dura. As ações encerraram o dia em forte queda, enquanto as preocupações com a inflação levaram os rendimentos dos títulos de prazo mais longo ao maior nível em quase duas décadas. — A entrevista coletiva prejudicou, até certo ponto, sua credibilidade — afirmou Stephanie Roth, economista-chefe da Wolfe Research. — Seu estilo de comunicação parece estar produzindo o efeito contrário, e o mercado está desafiando seu blefe. Kevin Warsh, novo presidente do Fed, e o presidente americano Donald Trump: 42 dias no cargo e muito mistério — Foto: Al Drago / Bloomberg O que está em jogo Está em jogo a capacidade de Warsh de liderar um comitê que vem gradualmente perdendo a paciência com a inflação elevada. Famílias e empresas também podem começar a duvidar da crença, mantida há muito tempo, de que o Fed fará o que for necessário para conter a inflação. A perda de credibilidade junto aos mercados poderia levar a rendimentos persistentemente mais elevados dos títulos de longo prazo e a uma desancoragem das expectativas de inflação, afirmou Robert Sockin, economista-chefe para os Estados Unidos da PGIM: — Suspeitamos que as declarações públicas de Warsh e de outros participantes depois desta reunião terão de reforçar ainda mais o tom favorável ao aperto monetário para reparar o que acabou sendo uma entrevista coletiva desconcertante. Kevin Warsh, descontraído, antes de ser apontado por Trump para a presidência do Fed — Foto: David Paul Morris/Bloomberg Yellen também errou A ex-secretária do Tesouro americano, Janet Yellen, também dirigiu o Fed com erros de comunicação — Foto: Bloomberg Warsh não é o primeiro presidente do Fed a errar na comunicação. Em 2014, os rendimentos dos títulos do Tesouro americano dispararam depois que Janet Yellen afirmou, em sua primeira entrevista coletiva como presidente do Fed, que os juros poderiam subir “cerca de seis meses” depois de o banco central encerrar suas compras de ativos. Mais recentemente, Jerome Powell classificou como “transitório” o choque inflacionário provocado pela pandemia, termo do qual depois se arrependeu. Mas o desempenho de Warsh foi surpreendente, dado que havia argumentos razoáveis para justificar a manutenção dos juros. Jerome Powell, antecessor de Warsh na liderança do Federal Reserve (Fed), o banco central dos EUA — Foto: Bloomberg Petróleo pressiona Uma pausa nos conflitos entre Estados Unidos e Irã nos últimos dias moderou a mais recente disparada dos preços do petróleo. Um resultado da inflação de junho melhor do que o esperado deu às autoridades do Fed mais tempo para acompanhar as pressões sobre os preços, e a maioria dos economistas concorda que o mercado de trabalho não está contribuindo para as preocupações inflacionárias. As autoridades terão hoje acesso a novos dados de inflação nos EUA. Juros de mercado sobem Outros integrantes do Fed já haviam explicado seu apoio à manutenção dos juros. O vice-presidente Philip Jefferson afirmou que a política monetária estava bem posicionada, enquanto a diretora Lisa Cook disse que era prudente esperar mais tempo para observar a evolução da inflação. O presidente do Fed de Nova York, John Williams, chegou a sugerir que a inflação havia atingido seu pico. — Tudo o que ele precisava dizer hoje era: “Não elevamos os juros porque acredito que a inflação cairá nos próximos meses. Caso isso não aconteça, aumentaremos os juros em setembro” — afirmou Roth sobre Warsh. — Mas, obviamente, ele não disse isso. A diretora do Fed Lisa Cook — Foto: Bloomberg O presidente do Fed optou por apontar para o mercado de títulos. Ele argumentou que a elevação das taxas de longo prazo desde a reunião do Fed em junho mostrava que os investidores estavam ouvindo suas promessas de garantir a estabilidade dos preços e fazendo o trabalho do Fed ao apertar as condições financeiras. — Embora, em certo nível, não tenhamos feito muita coisa em 42 dias, os mercados fizeram bastante — disse Warsh, referindo-se ao tempo em que está na principal cadeira do Fed. Próximo encontro: Jackson Hole Os analistas não se convenceram com a explicação. Warsh terá a oportunidade de corrigir o rumo num palco importante em agosto, durante o simpósio anual do Fed de Kansas City, em Jackson Hole, Wyoming. Mas, ao ser questionado ontem sobre seu próximo discurso, Warsh, para variar, deu poucas pistas. — Neste momento, vejo isso como uma folha de papel em branco — afirmou, acrescentando que esperava abordar algumas das “grandes questões” que apresentou a seus cinco grupos de trabalho, que tratam de temas que vão da comunicação à inteligência artificial. Sede do Fed, em Washington — Foto: Bloomberg Caso ele deixe passar essa oportunidade de esclarecer a direção do Fed, outros poderão fazê-lo em seu lugar. Ainda ontem a presidente do Fed de Dallas, Lorie Logan, a presidente do Fed de Cleveland, Beth Hammack, e o presidente do Fed de Minneapolis, Neel Kashkari, divergiram da decisão do colegiado liderado por Walsh e defenderam uma alta de 0,25 ponto percentual na taxa básica de juros. Quando as autoridades do Fed voltarem a se reunir, em setembro, mais integrantes do Fed poderão concordar que chegou o momento de elevar os juros, e Warsh talvez tenha de seguir a liderança deles. — A margem de tolerância do Fed com a inflação, excluindo Warsh, agora parece tão estreita que qualquer resultado inflacionário significativamente acima do esperado poderá forçar uma alta dos juros em setembro — afirmou Gregory Daco, economista-chefe da EY-Parthenon.