O Federal Reserve (Fed, o banco central americano) se reúne hoje para decidir o novo patamar da taxa básica de juros da maior economia do mundo. E a cadeira do chefe tem um novo ocupante. É Kevin Warsh, que vai liderar, pela primeira vez, uma reunião de decisão do Fomc, o comitê de política monetária dos EUA. O novo presidente do Fed tem dado poucos e contraditórios sinais sobre o que deve ser a sua condução da autoridade monetária americana, cujas decisões mexem com toda a economia global. Com isso, há uma divisão de expectativas. Embora a maioria dos analistas preveja a manutenção da taxa de juros, muitos admitem que não têm certeza sobre como Warsh pretende conduzir o Fed. Warsh, que já havia sido diretor do Fed entre 2006 e 2011, foi indicado pelo presidente dos EUA, Donald Trump, no fim de janeiro. Ele assumiu o posto em maio, após o republicano passar meses atacando a instituição e o antigo presidente, Jerome Powell, exigindo juros mais baixos e até o ameaçando de demissão. Durante seu período no Fed, há quase vinte anos, Warsh sempre se mostrou cauteloso em relação à inflação e frequentemente apoiou taxas de juros mais altas. Mas, desde o ano passado, ele passou a ecoar a visão de Trump de que as taxas poderiam estar significativamente mais baixas, a despeito da pressão inflacionária persistente. A decisão já é amplamente esperada pelo mercado, e ela indica que as pressões de Trump não devem ecoar nem nessa nem nas próximas decisões ao longo de 2026. De acordo com a plataforma FedWatch, que calcula a previsão através de contratos negociados no mercado, a manutenção do atual patamar era esperada por 99,4% dos operadores na noite de ontem. Hoje, a taxa básica de juros dos EUA está na faixa entre 3,5% e 3,75%. Diferentemente do Brasil, os juros americanos são fixados em um intervalo. Presidente Trump conversa com o novo presidente do BC americano, Kevin Warsh, durante sua cerimônia de posse na Casa Branca — Foto: Anna Moneymaker/Getty Images via AFP Os operadores de opções estão cada vez mais divididos sobre a trajetória dos juros do Federal Reserve no curto prazo, com apostas conflitantes que vão desde cortes até diferentes magnitudes de altas nos próximos meses. Embora precifiquem com quase total certeza que o Fed manterá os juros inalterados na reunião desta quarta-feira, todas as atenções estarão voltadas para a primeira entrevista coletiva de Warsh, em busca de sinais sobre os próximos passos da política monetária. Essa perspectiva permanece incerta mesmo com Estados Unidos e Irã se preparando para assinar formalmente um acordo de paz provisório, movimento que derrubou os preços do petróleo ao menor nível em três meses e trouxe algum alívio para as pressões inflacionárias. — O mercado tem baixa convicção antes desta reunião porque o presidente Warsh é um desconhecido relativo para os investidores — afirmou Mark Cabana, chefe de estratégia de juros dos Estados Unidos do Bank of America, à agência Bloomberg. — A precificação dos ativos reflete bem a variedade de opiniões existentes no mercado”. Inflação preocupa mais que emprego Se antes o mercado de trabalho acendia alguma luz de preocupação, as atenções do comitê, agora, devem estar voltadas à escalada da inflação, que segue acima da meta de 2% desde a pandemia, e teve um salto após o conflito no Irã. Kevin Warsh, indicado para comandar o Federal Reserve (Fed), o banco central americano, passa por sabatina no Senado, em Washington — Foto: Mandel NGAN / AFP O galão da gasolina nos EUA, por exemplo, saiu de US$ 2 para US$ 4, e o BTG Pactual estima que a próxima leitura do PCE, índice de inflação olhado de perto pelo Fed, deve alcançar os 4% nos últimos doze meses. Fala de Wars é 'o maior risco', diz JP Morgan Segundo o relatório do JP Morgan assinado pelo economista Michael Feroli, por conta da alta da inflação, o comitê deve adotar uma postura “mais dura” (ou hawkish, no jargão do mercado financeiro) e demonstrar incômodo com o aumento de preços na economia. Mas as atenções estarão voltadas ao discurso de Warsh logo após o anúncio da decisão: “O conteúdo de suas declarações, no entanto, representa um ponto de maior risco. Se Warsh transmitisse um sinal mais brando (dovish) do que o implícito no dot plot (painel de previsões futuras dos juros feita pelos diretores), ele imediatamente levantaria dúvidas sobre sua sinceridade e transparência”, escreveu o analista, que vê chances de Warsh transmitir uma mensagem de neutralidade. Já a consultoria inglesa Capital Economics afirma que, após se tornar chefe do Fed, ele tende a adotar um tom mais duro, combativo à inflação. “Mesmo que Warsh se sinta politicamente alinhado à administração Trump, um tom explicitamente dovish (mais brando) reacenderia as preocupações sobre a independência do Fed e poderia pressionar para cima os rendimentos dos títulos”, avaliou o chefe de pesquisa para América do Norte, Stephen Brown. “Um Warsh amigável a Trump provavelmente ainda tentaria se equilibrar entre soar neutro e reconhecer que altas de juros permanecem uma possibilidade. Dependendo do nível dos preços do petróleo na próxima semana, qualquer sinalização nessa direção ainda poderá ser interpretada pelos investidores como uma mensagem hawkish (dura)”. Kevin Warsh foi apontado por Trump para a presidência do Fed para substituir Jerome Powell, que se tornou desafeto do republicano — Foto: David Paul Morris/Bloomberg Andressa Durão, economista da instituição financeira ASA, vê o momento como “delicado”, mas aposta que a primeira entrevista coletiva do novo mandatário deve ter tom de neutralidade: — Warsh provavelmente adotará um tom cauteloso, mas deve de alguma forma sinalizar alguma abertura a quedas de juros no futuro, porém indicando que qualquer mudança dependerá do consenso do comitê — disse ela, afirmando que a coletiva vai refletir uma “necessidade de consolidar liderança e não uma tentativa de fazer mudanças rápidas na política monetária”. Menos papo? Para além da sua primeira reunião, Warsh também pode definir novas diretrizes para as comunicações do Fed. É o que avaliam analistas ouvidos pela agência Bloomberg, tendo como base declarações realizadas pelo próprio Warsh. Ele já afirmou que os diretores votantes do Comitê “falam com bastante frequência” e “podem se tornar prisioneiros de suas próprias palavras”. A decisão de reduções nas comunicações, para ele, preservaria flexibilidade e evitaria a percepção de comprometimento. Para alguns entrevistados, o famoso dot plot, que é divulgado a cada duas reuniões e mostram onde os diretores veem os juros nos meses seguintes, pode ser eliminado. — Isso provavelmente tornará os juros mais voláteis. Reduzir a transparência pode levar o mercado a tentar se antecipar a cada indicador econômico divulgado, porque ele precisará interpretar se aquilo sinaliza uma ação ou outra do Fed — disse Cindy Beaulieu, diretora de investimentos para a América do Norte da gestora Conning. E o Brasil com isso? Decisão impacta todo o mundo A decisão sobre o juro americano tem impacto global. Isso porque a taxa calibra o valor do dólar e, consequentemente, impacta moedas e investimentos em todo mundo. Quando a taxa americana está alta, parte volumosa do capital global vai para os Estados Unidos, já que o país é considerado um dos mais seguros do mundo para aplicações. Os títulos do Tesouro americano tendem a ficar mais atraentes, drenando os investimentos espalhados em todo o mundo. Com menos dólares nos países, o preço da moeda aumenta. Por outro lado, com um ciclo de queda do juro por lá, o capital global começa a buscar aplicações que possam render mais. E países emergentes, como o Brasil, se tornam mais atraentes para o destino deste capital. Este, por exemplo, foi um dos fatores do ingresso firme dos estrangeiros entre a segunda metade do ano passado e os dois primeiros meses deste ano. Além disso, diante da manutenção do juro por lá e a Taxa Selic ainda em patamar restritivo por aqui — em que as apostas veem uma redução para 14,25% ao ano nesta quarta-feira —, este diferencial de juros extenso favorece uma operação conhecida como carry trade: o investidor toma dinheiro emprestado num país onde os juros são baixos e aplica em outro no qual a taxa é elevada, caso brasileiro. (com Bloomberg News)