O Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) se reúne hoje para decidir o novo patamar da taxa básica de juros da maior economia do mundo. A grande expectativa entre os investidores é pela manutenção da atual taxa, no intervalo entre 3,5% e 3,75%. Mais do que isso — como por exemplo se haverá algum sinal sobre o que o Fed fará em setembro — ninguém sabe e nem é capaz de especular. Grandes casas de investimentos admitem que não têm certeza sobre como o novo presidente do Fed, Kevin Warsh deve conduzir a segunda reunião do Comitê de Política Monetária (Fomc, na sigla em inglês) do Fed sob o seu comando. Isso porque, desde que assumiu o cargo por indicação do presidente dos EUA, Donald Trump, Warsh tem defendido a ideia de não sinalizar ao mercado futuros passos do Fed, que influencia a economia e os mercados de todo o mundo. Optou pelo mistério. De acordo com a plataforma FedWatch, que calcula as chances do movimento através de contratos negociados no mercado, a manutenção do atual patamar de juros na reunião de hoje é esperada por 70% dos operadores ouvidos pela última sondagem. Os outros 30% até estimavam uma alta no juro em 0,25 ponto percentual. “Esperamos que Warsh mantenha sua estratégia de deliberadamente não fornecer qualquer orientação sobre a trajetória futura dos juros nem explicar como o Fed reagiria a diferentes cenários”, disse o banco americano Citi em relatório. No Brasil, Andressa Durão, economista do ASA, tem uma leitura semelhante. Ela faz um paralelo com a reunião anterior do Fomc, que classifica como “surpreendente” no que se refere à liderança de Warsh: — Por mais que ele queira passar uma mensagem mais hawkish (dura, combativa à inflação), ele não quer passar a mensagem. Se ele não quer passar mensagem, não virá nada de novo do que ele fez, como na última reunião. A novidade seria ainda menos sinais para frente, como uma coletiva ainda menor ou de uma forma diferente — disse a economista ao GLOBO. Por conta desse silêncio, diz o relatório do Citi, “os mercados refletem a incerteza sobre como os acontecimentos recentes afetarão a função de reação do Fed”. A falta de orientação futura tende a manter os juros mais sensíveis aos movimentos do petróleo “até que os dados econômicos apontem de maneira mais clara para uma direção”. Mudança de estilo A estreia de Warsh no comando do Fed, em junho, já mostrou uma diferença na comparação com seu antecessor, Jerome Powell. Além de um comunicado enxuto e sua abstenção em demonstrar suas previsões para onde estará o juro americano no futuro, no documento chamado de dot plot, o novo comandante do banco central americano determinou a instauração de grupos de trabalho para revisar mecanismos financeiros e a comunicação da autoridade monetária. O chamado "forward guidance", sinalização dos próximos passos da trajetória dos juros dados pelo Fed nas reuniões, é um dos alvos declarados de Warsh. Houve, segundo ele, uma “boa discussão em família” sobre essas mudanças. Futuro? Guerra do Irã dirá Com a diminuição das sinalizações futuras do Fed, as atenções também estarão voltadas à dissidência dos diretores na decisão de hoje. Para o Citi, dois votos pelo aumento de juros são esperadas. Mais que isso, diz o banco americano “enviariam um sinal ainda mais hawkish (duro, combativo à inflação)”. Andressa concorda. O Fomc não está pronto “para apertar o gatilho”, dizem os analistas da consultoria inglesa Capital Economics. Apesar das idas e vindas entre Estados Unidos e Irã após o anúncio de cessar-fogo em meados de junho e a recente escalada do barril do petróleo, que voltou a pressionar o custo dos combustíveis, a casa vê os dados recentes de inflação, considerados “mais benignos”, como um fator de adiamento para decidir o rumo do juro americano: “Os dados benignos de inflação de junho deram ao Federal Reserve mais tempo para avaliar como a inflação evoluirá nos próximos meses”, diz a consultoria, que não descarta um aperto monetário em setembro “se as pressões inflacionárias permanecerem persistentes”. Como isso afeta o Brasil? A decisão sobre o juro americano tem impacto global. Isso porque a taxa calibra o valor do dólar e, consequentemente, impacta moedas e investimentos em todo mundo. Quando a taxa americana está alta, parte volumosa do capital global vai para os Estados Unidos, já que o país é considerado um dos mais seguros do mundo para aplicações. Os títulos do Tesouro americano tendem a ficar mais atraentes, drenando os investimentos espalhados em todo o mundo. Com menos dólares nos países, o preço da moeda aumenta. Por outro lado, com um ciclo de queda do juro por lá, o capital global começa a buscar aplicações que possam render mais. E países emergentes, como o Brasil, se tornam mais atraentes para o destino deste capital. Este, por exemplo, foi um dos fatores do ingresso firme dos estrangeiros entre a segunda metade do ano passado e os dois primeiros meses deste ano. Além disso, diante da manutenção do juro por lá e com a Taxa Selic (taxa básica de juros brasileira, atualmente em 14,25% ao ano) ainda em patamar restritivo por aqui (a decisão do BC só acontece na semana que vem), este diferencial de juros extenso favorece uma operação conhecida como carry trade: o investidor toma dinheiro emprestado num país onde os juros são baixos e aplica em outro no qual a taxa é elevada, caso brasileiro.
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