0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Djamila Ribeiro fala sobre a nova edição do livro 'Lugar de Fala' e explica 'não é interdição' — Foto: Divulgação "O que não é lugar de fala?" Essa foi a primeira pergunta que fiz à filósofa e escritora Djamila Ribeiro no meu programa na GloboNews que vai ao ar nesta quarta-feira às 23h30. Djamila lança neste fim de semana, no Rio de Janeiro, a edição revisada e ampliada de seu primeiro livro, Lugar de Fala, publicado originalmente em 2017 e a sua resposta ajuda a esclarecer muitos dos equívocos que cercaram o conceito ao longo da última década. — Lugar de fala não é interdição, não é impedir a outra pessoa de falar, não é dizer que só mulheres podem falar da questão das mulheres ou só negros podem falar da questão dos negros. O lugar de fala é, justamente, a gente entender a nossa localização social, o lugar de onde se fala, não é o que se fala, mas de onde se fala. Todo mundo pode falar sobre tudo, só que nós vamos falar de lugares diferentes e marcar esse lugar é importante, até para a gente compreender, porque ainda somos poucas mulheres em determinados espaços, porque a produção intelectual e literária de mulheres demorou tanto tempo para fazer parte desse regime discursivo. Se a gente não marca, acaba acreditando que as mulheres não estão talvez porque não se esforçaram, não quiseram e não compreendi que tem todo um histórico é que impediu que as mulheres estivessem nesses espaços. Principalmente mulheres negras por conta do histórico do nosso país, esse país escravocrata, com toda essa herança que a gente carrega e que coloca as pessoas negras no lugar de diferentes oportunidades — explica a escritora Djamila lembra que foi somente a partir de O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir, publicado em 1949, que a mulher passou a ser pensada como sujeito de sua própria história. Até então, era concebida sobretudo em oposição ao homem. Já a escritora e psicóloga portuguesa Grada Kilomba amplia essa reflexão, anos depois, ao mostrar a dupla antítese vivida pelas mulheres negras: a da branquitude e a da masculinidade. — Somos colocadas nesse lugar duplo, o que dificulta que sejamos enxergadas como sujeitos e pensadas a partir do nosso próprio lugar social. O movimento feminista teve um papel importantíssimo, especialmente o feminismo hegemônico, mas, em muitos momentos, universalizou a categoria "mulher". Somos todas mulheres, mas há diferentes formas de ser mulher. Mulheres negras, mulheres indígenas e tantas outras partem de lugares sociais distintos. Nomear esse lugar é fundamental para compreendermos as consequências de ser uma mulher negra no Brasil. A maioria ainda no trabalho doméstico, um grande número de mulheres negras assassinadas, vivendo em periferias. Se a gente não marca, acaba mais uma vez deixando de lado aquela mulher que entrecruza outros marcadores sociais, além da questão de gênero. Eu, como mulher negra, vivo o meu gênero a partir da raça, e não tem como eu separar isso — destaca Djamila. A nova edição de Lugar de Fala será lançada neste domingo, às 18h, no Città América, no Rio de Janeiro, e na próxima quarta-feira, no Shopping da Gávea. O livro traz prefácio da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie e apresentação de Grada Kilomba. O texto foi ampliado por Djamila durante seu período como professora visitante no Massachusetts Institute of Technology, por meio do programa Dr. Martin Luther King Jr. Ela foi a primeira brasileira a lecionar na instituição.