Toda mulher negra que já chegou a uma sala de liderança conhece um peso que nenhum relatório precisa provar: a dúvida silenciosa de quem avalia se ela merece estar ali. Durante muito tempo, esse peso foi tratado como intuição. Hoje, quero falar de uma mudança decisiva. A distância entre sentir e provar está diminuindo, e diminui pela tecnologia, não por discurso.
Um CEP pode fazer o trabalho que ninguém teria coragem de fazer abertamente. Num país onde a segregação geográfica é fato histórico, usar endereço como critério de triagem pode reproduzir exclusão racial com a precisão de uma régua, sem que dados de raça/cor apareçam em lugar nenhum do sistema. Uma checagem humana dificilmente enxerga esse padrão, que mulheres negras identificaram antes de qualquer algoritmo, na pele. O que me interessa é outra pergunta. Em que condições a tecnologia revela um padrão que sempre esteve ali, visível para quem vivia, invisível para quem decidia.
Estudo desigualdade como economista há mais de duas décadas. Aprendi cedo que a forma mais frequente de discriminação não é o caso isolado e escandaloso, mas a dispersão invisível em milhões de decisões pequenas. A mesma tecnologia que reproduz esses vieses, quando bem desenhada, também consegue corrigi-los. Hoje, parte do meu trabalho é desenhar mecanismos de inclusão com uma pergunta simples. Este critério que parece neutro, CEP, escola, está funcionando como substituto disfarçado de raça, gênero ou classe social? Um sistema bem desenhado encontra essa correlação numa escala impossível para qualquer comitê de RH. É a mesma escala que, por décadas, trabalhou contra mulheres negras. Agora pode trabalhar a favor.













