Se as expectativas de um super El Niño se confirmarem, somente esse evento pode gerar perdas econômicas no primeiro ano da ordem dos US$ 686 bilhões As mudanças climáticas são frequentemente apresentadas como um desafio ambiental, mas novos estudos sugerem que também representam uma grande ameaça ao crescimento econômico - e que os custos da inação dos governos são elevados. Pesquisadores estimam que, até 2050, as mudanças climáticas poderão reduzir o PIB per capita global entre 3% e 15% em cenários de aquecimento plausíveis. Esse impacto será ainda maior nos países de baixa renda e renda média baixa, que hoje já são entre 4% e 12% mais pobres em termos de PIB per capita devido a mudanças nas temperaturas locais e à elevação do nível do mar. A mensagem dos pesquisadores é clara: os governos precisam incorporar o risco climático ao planejamento econômico convencional. Pesquisadores do Grantham Research Institute on Climate Change and the Environment na London School of Economics and Political Science, em parceria com a Coalizão de Ministros das Finanças para a Ação Climática, combinaram os resultados de quase 300 estudos e mais de 6.000 estimativas distintas sobre as consequências das mudanças climáticas e dos investimentos em adaptação no relatório “The macroeconomic case for investing in climate adaptation”. O relatório ressalta que a adaptação não deve ser vista como um custo, mas sim como um investimento estratégico que apoia a estabilidade econômica, reduz riscos e promove o desenvolvimento de longo prazo. Na ausência de mais investimentos em adaptação e resiliência, os impactos das mudanças climáticas vão do aumento da inflação, do desemprego e da desigualdade à queda na produtividade do trabalho, e não apenas nos países de baixa renda e de renda média baixa. Em junho, por exemplo, a onda de calor no Reino Unido teve um impacto econômico de 1,15 bilhão de libras, com 24 milhões de trabalhadores perdendo horas de trabalho. As mudanças climáticas também influenciam as economias e sistemas financeiros como um todo, uma vez que o enfrentamento dos impactos físicos das mudanças climáticas exerce pressão sobre as finanças públicas, por meio do aumento de despesas e da redução da receita como resultado das perdas econômicas. Isso pode afetar as classificações de risco de crédito soberano e elevar os custos de captação de recursos dos países, tornando-se uma preocupação central para a política econômica. Os efeitos das mudanças climáticas - inundações, secas, tempestades e ondas de calor extremas - não são mais um risco distante. Seus custos crescentes já afetam as economias em todo o mundo e sua frequência tende a acelerar na ausência de esforços mais robustos de adaptação. Estima-se que a conta econômica dos incêndios florestais que devastam a Espanha pode atingir € 3,3 bilhões. Cullen Hendrix, pesquisador sênior do Peterson Institute for International Economics, estima que se a intensidade do El Niño deste ano for semelhante à do super evento de 1997-98, as perdas econômicas no primeiro ano seriam da ordem dos US$ 686 bilhões, ou quase 0,6% do PIB global. Se não houver mobilização dos governos em acelerar ações de mitigação e adaptação, essas perdas poderão aumentar para US$ 3,1 trilhões nos próximos cinco anos. Os dois estudos apontam os benefícios econômicos de agir preventivamente para evitar billhões de dólares em perdas e destruição provocadas pelas mudanças climáticas. Os pesquisadores do Grantham Research Institute ressaltam que investimentos em adaptação trazem retornos substanciais e que os benefícios acumulados podem superar os custos em poucos anos. Eles estimam a relação benefício-custo em torno de 4:1, em média, e taxas internas de retorno econômico próximas de 25%. Em países de renda mais baixa, onde os impactos climáticos costumam ser mais severos, os retornos podem ser ainda maiores, de 5:1, em média. Sistemas de alerta precoce apresentam relações benefício-custo em torno de 6:1, enquanto investimentos em infraestrutura resiliente alcançam índices próximos de 5:1. Hendrix observa que os US$ 686 bilhões em perdas no atual ciclo do El Niño já estão, em grande medida, consolidados - o que não é o caso dos US$ 2,4 trilhões adicionais em perdas acumuladas estimadas nos quatro anos seguintes. Investir agora em mitigação e adaptação terá impacto em milhares de decisões de investimentos do setor privado, que dependem da disponibilidade de crédito. As previsões e os impactos no crescimento são conhecidos. Os governos nacionais e a comunidade internacional precisam começar a agir com base na antecipação, em vez de esperar passivamente pelas perdas. A adaptação é mais eficaz quando realizada de forma antecipada, estratégica e integrada ao planejamento mais amplo de desenvolvimento, em vez de ser reativa ou fragmentada. Mas os pesquisadores alertam que acelerar a adaptação e fortalecer a resiliência aos impactos climáticos que já não podem mais ser evitados não significa que os esforços para reduzir as emissões de gases de efeito estufa devam ficar em segundo plano. Isso continua sendo inegociável e imperativo.
Crise climática pode tirar até 15% do PIB per capita global
Se as expectativas de um super El Niño se confirmarem, somente esse evento pode gerar perdas econômicas no primeiro ano da ordem dos US$ 686 bilhões













