Avanços em genética, tecnologia e produtividade são essenciais para preservar a liderança brasileira no mercado internacional Viveiro florestal da Klabin, empresa que investe para ganhar produtividade e adaptar florestas às mudanças climáticas — Foto: Eduardo Knapp/Divulgação A indústria brasileira de papel e celulose fechou 2025 com números superiores às expectativas. A produção de celulose alcançou 29,4 milhões de toneladas, alta de 6,9% em relação a 2024, enquanto as exportações registraram 20,7 milhões de toneladas, crescimento de 11,6%. Os resultados consolidam o Brasil como maior exportador de celulose. Já o papel manteve a produção em 11,3 milhões de toneladas e viu as remessas para o mercado externo subirem 4,8%. Apesar dos números positivos, não dá para baixar a guarda. E a razão é simples: a expansão da capacidade produtiva, a instabilidade comercial e o avanço da produção integrada na China pressionam o mercado global, provocam a baixa dos preços e estreitam as margens. A posição de destaque do Brasil em celulose foi alcançada graças às condições climáticas e de solo favoráveis para o crescimento rápido das florestas, aliadas a investimentos em práticas sustentáveis. “O Brasil passou de importador de papel e celulose para ser o segundo maior produtor do mundo, atrás dos Estados Unidos e à frente da China”, afirma Robinson Cannaval, diretor-executivo do Instituto de Pesquisas e Estudos Florestais (Ipef). “Quando se fala em floresta plantada, temos os melhores índices de produtividade, graças aos altos investimentos em ciência e tecnologia”. Relatório divulgado pela Indústria Brasileira de Árvores (Ibá) revela que a área de floresta plantada para silvicultura no Brasil chegou a 10,5 milhões de hectares em 2024 (último levantamento), com receita bruta de cerca de R$ 240 bilhões. O ciclo curto de produção do eucalipto no país, na faixa de sete anos — em outras regiões pode passar de 15 —, continua sendo um importante diferencial da indústria brasileira, mas é preciso ir além. A vantagem de contar com custos inferiores em relação a outros países está se reduzindo. “Isso tem muito a ver com aumento de custo de mão de obra e mudanças climáticas, que fazem com que as florestas estejam em ambiente de menor pluviosidade e aumento da temperatura”, diz Cannaval. No cenário atual, advertem os especialistas, a vantagem competitiva depende da integração logística, relação afinada com fornecedores locais, disponibilidade energética, digitalização da cadeia produtiva, redução de perdas e aumento da produtividade florestal. Darlon Orlamünder de Souza, diretor de sustentabilidade, P&D+I e estratégia & mercado da Klabin, considera que é necessário continuar aumentando a eficiência das operações. “Com a prática da silvicultura, entregamos reputação ao mercado internacional”, diz Batista, da Symbiosis Investimentos — Foto: Divulgação É essa uma das frentes de trabalho da companhia, que aposta na resiliência florestal e no melhoramento genético das espécies cultivadas para ganhar produtividade e adaptar as florestas às condições climáticas futuras. “Um dos destaques é o trabalho com embriogênese somática de pínus, tecnologia que permite ganhos significativos de produtividade, uniformidade e qualidade genética”, diz Souza. “Atuamos ainda com tecnologias florestais para o desenvolvimento de mudas mais resilientes às condições climáticas adversas e pesquisas aplicadas ao controle de pragas e melhoria na qualidade da matéria-prima e de propriedades da madeira.” O resultado, segundo o executivo, foi o incremento médio anual de produtividade superior a 54 metros cúbicos/hectare/ano para eucalipto e 39 metros cúbicos/hectare/ano para pínus. Já a Suzano registrou um aumento de produtividade de dois pontos percentuais entre 2023 e 2025. “A relevância está no ganho em um período de baixa precipitação. Nos últimos seis anos choveu 180 milímetros a menos por ano”, afirma Douglas Lazaretti, vice-presidente executivo florestal da Suzano. “A redução de chuva nesse patamar nos traria um impacto negativo da ordem de 7 metros cúbicos de madeira por hectare por ano, principal medida de produtividade adotada pelo setor. Mesmo assim, crescemos.” Segundo o executivo, o bom desempenho resulta da combinação de melhoramento genético, seleção de clones para cada região e uso de tecnologia. A empresa desenvolveu uma plataforma, chamada de Anomal-IA, que combina inteligência artificial (IA) com tecnologias de sensoriamento remoto para detectar anomalias em florestas, com foco na minimização de perdas e maximização da produtividade. “Inicialmente o sistema era focado em detectar e classificar pragas, vendavais, focos de incêndio e geadas. Hoje, oferece múltiplos modelos de monitoramento que nos dão uma visão quase em tempo real da saúde de nossos ativos.” Alan Batista, CFO da Symbiosis Investimentos, assinala que a demanda por produtos de origem renovável e com menor pegada de carbono representa uma alavanca importante de crescimento e diferenciação para a indústria brasileira. “Isso vale para celulose e para madeiras tropicais”, afirma. “O consumo mundial de madeira tropical serrada é de 75 milhões de metros cúbicos. No passado, o Brasil respondia por 20% desse mercado, hoje não passa de 3%.” Pioneira em florestas plantadas de espécies da Mata Atlântica (jequitibá-rosa, ipês, jacarandá-da-baía, pau-brasil), a Symbiosis conta com 5 mil hectares na região de Trancoso e faz melhoramento comercial para espécies da Mata Atlântica. “Temos clones de louro-pardo com potencial de eficiência 60% maior que as sementes nativas”, diz Batista. “Com a prática da silvicultura, entregamos reputação ao mercado internacional. Ninguém quer mais madeira fruto de desmatamento.”
Competitividade exige novos investimentos na indústria florestal
Avanços em genética, tecnologia e produtividade são essenciais para preservar a liderança brasileira no mercado internacional









