Um dos principais desafios do Brasil para manter e ampliar mercados no exterior para suas exportações agropecuárias é garantir que sua produção não degrade o meio ambiente. Essa é uma exigência cada vez mais comum em vários países, e não apenas nos mais desenvolvidos, como os da União Europeia. Na China, principal parceiro comercial do Brasil e um dos maiores compradores da carne e da soja brasileiras, empresas e entidades do setor também começam a adotar critérios voltados à rastreabilidade e a cadeias livres de desmatamento. O Brasil ainda tem dificuldade de comprovar que sua soja e sua carne não contribuem para a redução de cobertura florestal ou conversão de biomas, mas não é necessariamente por falta de controle. Um estudo divulgado hoje, que envolveu pesquisadores brasileiros e chineses, mostra que o Brasil já conta com 21 iniciativas de controle das cadeias produtivas da soja e da carne bovina, que respondem por cerca de 60% das exportações agropecuárias do Brasil e têm a China como principal destino. No entanto, são mecanismos que têm regras diferentes e que funcionam de forma fragmentada. A conclusão é da pesquisa “Rastreando a responsabilidade: fortalecendo o monitoramento do desmatamento nas cadeias de suprimento de soja e carne bovina do Brasil”, que foi divulgada hoje pelo WRI Brasil, seção brasileira do World Resources Institute (WRI), uma organização internacional de pesquisa sem fins lucrativos que atua desde a década de 1980 em vários países no fomento a práticas sustentáveis que possam proteger e restaurar a natureza e estabilizar o clima. O WRI mobiliza especialistas em vários países para analisar desafios ambientais e sugerir soluções. O trabalho apresentado hoje sugere que o Brasil faça um trabalho de coordenação das iniciativas já existentes para monitorar a produção de soja e carne, de forma que seja possível dar aos importadores mecanismos efetivos de rastreabilidade dos produtos. “O WRI Brasil propõe a criação de um marco de referência unificado, baseado na legislação brasileira e alinhado aos principais padrões internacionais para cadeias livres de desmatamento e conversão (DFC)”, informou a organização em um comunicado. A pesquisa identificou dez iniciativas de controle do impacto ambiental da soja e 11 da criação de gado, mas apontou que elas funcionam de forma fragmentada e sob regras distintas. Há diferenças nas áreas e nos biomas cobertos, nas datas a partir das quais o desmatamento é considerado, nos critérios de bloqueio e na capacidade de verificar fornecedores indiretos. Essa falta de coordenação dificulta o trabalho de produtores, empresas e compradores estrangeiros, aponta o trabalho, que envolveu pesquisadores brasileiros e chineses. "Ao reunir informações hoje distribuídas entre diferentes sistemas, o modelo facilitaria a avaliação de riscos socioambientais por importadores e investidores, especialmente diante da entrada em vigor de legislações mais rigorosas em mercados como a União Europeia", diz o WRI. Lavoura de soja no interior de Goiás — Foto: Dado Galdieri/Bloomberg/03/03/2026 No momento em que o Brasil busca ampliar suas parcerias comerciais em contraposição ao tarifaço sobre exportações brasileiras nos EUA — apesar da inclusão da carne entre as exceções de Donald Trump —, o WRI Brasil aponta a importância de “cadeias produtivas rastreáveis e transparentes” para estabelecer uma relação de confiança e conformidade com os compradores de outros países, possibilitando “o acesso a mercados mais exigentes”. Caminho tortuoso na pecuária Na pecuária, a principal dificuldade está nos fornecedores indiretos, pequenos criadores que vendem sua produção para intermediários que têm os grandes frigoríficos como clientes. Os frigoríficos normalmente verificam a situação da fazenda que lhes vende o animal, mas o gado pode ter nascido ou passado parte da vida em outras propriedades, eventualmente associadas a desmatamento ou a infrações ambientais. O estudo recomenda, por exemplo, ampliar no Brasil o uso das já existentes Guias de Trânsito Animal, que registram a movimentação do rebanho, enquanto avançam os programas de identificação individual dos animais, como equipamentos de geolocalização. Fragilidade na cadeia da soja Na cadeia da soja, fragilidade equivalente ocorre porque algumas iniciativas monitoram apenas a área em que o grão é cultivado, e não toda a propriedade inscrita no Cadastro Ambiental Rural. Isso pode permitir que uma fazenda mantenha a lavoura em área regular, embora tenha desmatamento ilegal em outro ponto do terreno. Há ainda o risco de triangulação, quando grãos produzidos numa propriedade irregular são comercializados por meio de outra, que é considerada regular. Área desmatada para plantação de soja na Amazônia — Foto: Victor Moriyama/The New York Times Entre os mecanismos de controle mais completos já disponíveis, o estudo destaca plataformas estaduais como a do Pará e os protocolos de monitoramento de fornecedores da Amazônia e do Cerrado, que empregam ferramentas digitais para cruzar dados do cadastro com alertas de desmatamento identificados por satélite, por exemplo, além de listas de embargos, registros fiscais e informações sobre a movimentação de animais. A proposta do WRI Brasil não é criar novas regras agora, mas reunir os critérios mais robustos dos sistemas que já existem em um só padrão. O modelo incluiria, por exemplo, o monitoramento da propriedade inteira, a rastreabilidade dos fornecedores indiretos e o uso integrado de bases oficiais. Para a entidade, a adesão da China às exigências de rastreabilidade será decisiva para que esse padrão ganhe escala, por causa do volume que importa do Brasil. As cifras são um estímulo e tanto para os investimentos dos produtores brasileiros nesse sentido. Em 2023, a China recebeu 74% das exportações brasileiras de soja, avaliadas em US$ 38,6 bilhões, e importou 1,33 milhão de toneladas de carne bovina do Brasil em 2024, segundo os dados citados no estudo. “Na visão do instituto, a rastreabilidade completa e confiável da produção agropecuária deixou de ser apenas uma exigência regulatória para se tornar um diferencial competitivo. Não se trata apenas de preservação do meio ambiente, mas de uma questão econômica e estratégica”, afirmou o WRI Brasil, em comunicado.