Irrigação em fazenda da SLC Agrícola: melhor gestão da água se tornou crucial — Foto: Divulgação Nos últimos anos, a Usina Santa Adélia vem expandindo a irrigação no noroeste paulista e seleciona variedades de cana-de-açúcar que exigem menos água. A Sementes Tropical, no Mato Grosso, avalia solos com tecnologia inspirada na da Nasa para análise do terreno em Marte. A gaúcha Aurora Sementes e a SLC Agrícola, com fazendas no Centro-Oeste e no Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), aceleram a adoção de práticas da agricultura regenerativa. Trata-se de uma corrida contra o tempo, em um país com condições climáticas cada vez piores para a produção agrícola — e um El Niño se aproximando. “Extremos de chuva, extremos de períodos secos e extremos de ondas de calor estão aumentando em todo o Brasil”, afirma José Marengo, coordenador-geral de pesquisa e desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). Neste ano, o cenário é reforçado pelos efeitos do El Niño, com início esperado neste semestre. “O fenômeno potencializa os eventos extremos provocados pelo aquecimento global”, explica o meteorologista Gilvan Sampaio, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Já se sabe que o El Niño será especialmente intenso desta vez. A expectativa de Marengo é de primavera mais chuvosa no Sul, verão mais seco e quente no Nordeste e em parte da Amazônia. Na região Centro-Oeste e no Matopiba, as temperaturas tendem a subir e as chuvas devem se tornar menos regulares, com maior risco de seca durante o plantio da soja, que começa em setembro no Centro-Oeste e entre o fim de outubro e novembro no Matopiba, como prevê Guilherme Bastos Filho, coordenador do Centro de Estudos do Agronegócio da Fundação Getulio Vargas (FGV Agro). Diante desse cenário, um relatório do banco BTG Pactual aponta para o Brasil Central riscos de encurtamento da janela de plantio e perda de produtividade da soja e do milho safrinha. Cresce a vulnerabilidade das pastagens. Já no Sul e em partes de São Paulo, a combinação de mais frentes frias, maior volatilidade térmica e excesso de chuvas tende a prejudicar a produção de arroz, soja, trigo e bovinos. A armazenagem e o transporte ficam mais expostos a transtornos. Grande parte do país não dispõe de vantagens como solos férteis ou logística eficiente, mas confiava na previsibilidade das chuvas. “O modelo agrícola brasileiro depende fortemente da regularidade climática”, alerta o relatório do BTG. Indo além do El Niño, Vinicius Bufon, doutor em agronomia e pesquisador da Embrapa Meio Ambiente, explica que muitos ainda não entenderam a real ameaça da crise climática. “O maior problema não é a mudança de um padrão para outro padrão, mas a imprevisibilidade”, diz. Para enfrentar o clima mais quente e com eventos extremos, os especialistas defendem uma combinação de medidas. Entre elas, ampliação das áreas irrigadas, do uso do plantio direto, aumento da camada de matéria orgânica no solo, correção do solo em profundidade, plantio de variedades mais resistentes ao calor e à seca, adoção de bioinsumos, monitoramento climático e digitalização na agricultura. A preservação e a reposição de água em mananciais superficiais e subterrâneos, assim como da umidade no solo, precisa se tornar prioridade para todos os produtores. O pacote também pode incluir o reforço da frota de máquinas para aproveitar janelas cada vez mais curtas para plantio e colheita. “Uma área que adota estratégias de adaptação às mudanças climáticas se torna mais estável, previsível e muito mais resiliente diante da seca”, afirma Bufon. O El Niño, aquecimento superficial das águas do Pacífico, vai ter efeito sobre todas as regiões do Brasil — Foto: Nasa Nem todo produtor tem caixa para isso. O combate aos riscos climáticos exige investimentos mais difíceis de fazer em tempos de juros altos, crédito caro e margens apertadas. “Com o setor rural extremamente descapitalizado nesses anos difíceis para a agricultura, poucos produtores têm condições de fazer o bom preparo do solo, ideal para ganhar resiliência”, diz Victor Griesang, diretor-executivo da Sementes Tropical. Nas contas do executivo, o preparo convencional do terreno costuma custar de R$ 1 mil a R$ 1.500 por hectare, e até R$ 4,5 mil por hectare conforme a qualidade do manejo. Segundo Griesang, os produtores do Mato Grosso passaram a intensificar o preparo do solo há cerca de 15 anos — época em que a prática já era corriqueira na Bahia. Ele conta que, até então, no Estado as chuvas eram mais regulares, sem tanta necessidade de intervenção. Isso mudou. “Agora temos aqui chuvas mais espaçadas, com um clima mais parecido com o baiano”, compara. Como resposta, a empresa intensificou o manejo do solo em profundidade de até 40 centímetros, com correção química, adição de matéria orgânica e uso de bioinsumos. Com isso, as raízes crescem mais e podem buscar a água da chuva que se infiltra nas camadas mais profundas. Para calcular onde e como aplicar os insumos, a empresa utiliza uma ferramenta da startup AgroRobótica, desenvolvida em parceria com a Embrapa Instrumentação e inspirada na tecnologia para análise do solo de Marte. O sistema usa um feixe de laser para medir com maior velocidade a composição química do solo, sem necessidade de envio de amostras para laboratório. Com base nos dados obtidos, um sistema de inteligência artificial calcula a necessidade de correção e faz recomendações agronômicas, conta Débora Milori, coordenadora do Laboratório Nacional de Agro-Fotônica da Embrapa Instrumentação. Outra frente de adaptação vem do ganho de agilidade no campo. Na Sementes Tropical, o tempo necessário para plantar mil hectares caiu de cerca de 30 para dez dias nos últimos dez anos, graças ao aumento da frota de tratores e ao uso de plantadeiras mais eficazes. Griesang considera a propriedade mais preparada para enfrentar o El Niño hoje do que dez anos atrás. Ainda assim, não espera passar ileso pelo fenômeno. “É muito provável que a produtividade caia”, diz. As temperaturas mais altas favorecem a proliferação de insetos e reduzem a formação de sementes nas plantas. A adaptação também passa pelo melhoramento genético, como é o caso da Usina Santa Adélia, com operações em Jaboticabal e em Pereira Barreto, no interior paulista. “Estamos buscando e implementando variedades que produzem mais com menos água”, conta Cássio Paggiaro, diretor agrícola da companhia. Como resultado, a empresa consegue produzir uma tonelada de cana com 7 a 8 milímetros de água, cerca da metade do consumido pelas variedades mais exigentes. Ajustes no calendário também entram na estratégia, especialmente com a chegada do El Niño. “Tentamos adiantar a safra para sobrar menos cana para processar em novembro, quando há probabilidade de as chuvas se intensificarem”, diz o executivo. Para monitorar as condições do tempo, a empresa tem cerca de 140 estações meteorológicas automatizadas, distribuídas pelos canaviais, a fim de orientar os momentos ideais de plantio, colheita, irrigação e aplicação de insumos. Desde 2023, as áreas irrigadas da companhia, em Pereira Barreto, passaram de zero para cerca de 4 mil hectares, diz Paggiaro. Para os próximos seis anos, a meta é chegar a 14 mil hectares. Ele calcula investimento de R$ 8 mil a R$ 10 mil por hectare na irrigação de salvamento (aplicada logo após a colheita, a fim de garantir que a cana brote em períodos de seca) e de cerca de R$ 30 mil por hectare nos sistemas com distribuição contínua de água. O executivo informa que as áreas irrigadas produzem, em média, 55% a mais. Milori, da Embrapa Instrumentação: tecnologia para análise de solo se inspira na da Nasa — Foto: Divulgação Na visão de Bufon, da Embrapa, o sistema traz também outras vantagens. “Com as mudanças climáticas, a irrigação passa a ter um papel cada vez mais estratégico, como infraestrutura para redução do risco, estabilidade da oferta e previsibilidade econômica”, afirma. Com mais produtores recorrendo à irrigação, porém, é preciso mais ação para repor os estoques de água doce no país. Isso inclui, entre outras medidas, proteção de nascentes, cobertura orgânica do solo, preservação de áreas arborizadas, plantio de espécies com raízes profundas e adaptações nas propriedades para retenção do máximo de água da chuva. A expansão da área irrigada se tornou crucial também para a SLC Agrícola. Há dez anos, a empresa tinha cerca de 5 mil hectares irrigados. Na próxima safra, esse total deve ser mais de cinco vezes maior, com 26 mil hectares, concentrados principalmente na Bahia e em Goiás. Nos próximos anos, o plano é expandir a área para 58 mil hectares, conta o diretor-presidente da empresa, Aurélio Pavinato. Para reduzir o consumo de água, o sistema é calibrado com base em estações meteorológicas e modelos que estimam a evapotranspiração — indicador básico para medir a quantidade efetivamente consumida pelas plantas. Na última safra, a companhia substituiu 17% dos defensivos químicos por alternativas biológicas, com funções como controle de pragas, que tendem a aumentar com o clima seco, e estímulo ao desenvolvimento radicular. “Uma planta com raízes mais profundas e mais desenvolvidas consegue suportar os veranicos e os estresses de forma mais eficiente”, afirma Pavinato. A empresa também aposta no manejo do solo, com adoção do plantio direto em 95% das áreas, cobertura permanente do solo e rotação de culturas. Assim, o sistema retém mais água. Na estiagem provocada pelo El Niño em 2016, as áreas da empresa na Bahia com plantio direto produziram cerca de 50 sacas de soja por hectare, em comparação com 15 sacas em áreas que ainda não adotavam a prática. A cobertura do solo também protege quando chove demais — a camada de matéria orgânica permite absorção gradual da água e reduz compactação e erosão. A estratégia é utilizada pela Sementes Aurora, de Cruz Alta (RS). A produtora de grãos e sementes de soja e trigo mantém pelo ano inteiro culturas de cobertura, como milheto, braquiária, aveia, ervilha e nabo. “Nossos resultados mostram a relevância do manejo baseado em plantas de cobertura e sistemas conservacionistas de produção, que contribuem para maior estabilidade produtiva, conservação do solo e aumento da resiliência das lavouras nos eventos climáticos extremos”, diz Maurício de Bortoli, diretor técnico da empresa. Nos temporais de 2024, a produção de soja da empresa caiu cerca de 30%. O tombo, apesar de grande, foi menor que a queda nas vizinhas que não adotavam a prática, que perderam mais de 50% da produção.