Losi, da AIPC, diz que a MP 1.341/26, que reduz prazo do drawback, traz cenário de insegurança e freia investimentos — Foto: Divulgação No ano que vem, Marcelo Grumiero espera colher a primeira produção dos pés de cacau que plantou pelo sistema de agrofloresta no município de Valentim Gentil, próximo a Votuporanga, norte do Estado de São Paulo. Ele é um exemplo dos muitos produtores que estão apostando nessa cultura em regiões onde ela não é tradicional, motivados pela disparada dos preços no mercado internacional e pela persistente demanda muito superior à oferta do produto no Brasil. A Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac), órgão ligado ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), responsável por promover o desenvolvimento da cultura, já tem registro de cacaueiros nos 26 Estados brasileiros, inclusive no Paraná e em Santa Catarina — locais onde até pouco tempo atrás o plantio desse fruto tropical era improvável. A participação deles na produção nacional ainda é inexpressiva, mas, de acordo com a Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC), registrou uma expansão de 1.358% em 2025 (para 175 toneladas de amêndoas), se comparada ao ano anterior. O começo da plantação de Grumiero se deu com a compra, em leilão, de uma área de pasto degradada e posteriormente recuperada. Além do cacau, a banana e o açaí compõem os 16 hectares voltados à produção — as culturas são 100% irrigadas pelo sistema de gotejo. Enquanto aguarda sua primeira colheita, o produtor se associou com um vizinho que começou o plantio cinco anos antes em apenas um hectare, comprando seus frutos para “treinar” o pós-colheita e a comercialização. Registrou a marca Gumkee, que vende através de um marketplace na internet. A intenção dele não é disputar mercado da commodity, mas vender um produto de qualidade para um nicho restrito — e de rentabilidade mais elevada. “Comecei a fazer a aquisição dos frutos dele [do vizinho] para experimentar. A minha área é grande e já quero ter esse know-how antes da minha produção”, afirma. Grumiero e outros produtores da região fazem parte do programa Cacau SP, da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (Cati), órgão ligado à Secretaria de Agricultura do Governo do Estado de São Paulo, que oferece suporte técnico. “A principal motivação do programa Cacau SP é criar uma nova cadeia produtiva sustentável e competitiva para o agronegócio paulista, diversificando a renda dos produtores e fortalecendo a cacauicultura no Estado”, afirma Fernando Miqueletti, diretor da unidade da Cati em São José do Rio Preto. Ele estima em cerca de 120 o número de propriedades cultivando cacau no Estado, distribuídas em 65 municípios, que contam com o acompanhamento e apoio técnico do Cacau SP. A alta dos preços da commodity e a insuficiência da produção nacional para atender à demanda interna são fatores que atraem os produtores. Depois de atingir o recorde histórico de US$ 12 mil a tonelada na Intercontinental Exchange de Nova York em 2024, os preços do cacau parecem estar buscando um novo patamar na faixa de US$ 4 mil, bem superior à média de US$ 2,5 mil a US$ 3 mil dos últimos 30 anos. A principal causa da valorização de dois anos atrás foi a crise climática que prejudicou a safra dos maiores produtores mundiais — Gana, Costa do Marfim, Indonésia e Equador —, derrubando os estoques globais. — Foto: Arte/Valor A disparada de 2024 provocou uma forte contração do consumo de derivados de cacau em todo o mundo, o que, por sua vez, gerou retração da moagem dos produtores brasileiros. A AIPC estima que o choque reduziu a moagem em cerca de 14,6% entre 2024 e 2025, reduzindo a utilização da capacidade instalada em 2025 para 71%, 12 pontos percentuais abaixo de 2024. Segundo a Ceplac, a produção mundial do fruto está em 4,8 milhões de toneladas, das quais 65% são produzidas pelos africanos. O Brasil ocupa a sexta posição, com menos de 250 mil toneladas anuais e está em 45º lugar entre os exportadores. A atividade é concentrada na Bahia e no Pará, que respondem por mais de 95% do total. A produção nacional, no entanto, é insuficiente, o que obriga as empresas moageiras a importar cacau para suprir a demanda local e as exportações. Em 2025, as importações de amêndoas totalizaram 42,1 mil toneladas, 65,2% a mais que em 2024. Desde que as lavouras da Bahia foram atingidas pela praga da vassoura-de-bruxa na década de 1990, a oferta doméstica é insuficiente para atender à demanda industrial. Um relatório produzido a pedido da AIPC informa que, na média dos últimos dez anos, o consumo brasileiro foi 16% superior à produção. O diretor da Ceplac, Thiago Guedes Viana, considera que, para recuperar o volume de cacau produzido e eliminar esse déficit, é necessário elevar a produtividade da lavoura brasileira, que hoje é metade da dos africanos e equatorianos. Ele defende, no entanto, que para isso é preciso garantir rentabilidade ao agricultor: “A gente precisa avançar em ganhos de produtividade, qualidade das amêndoas, inovação e acesso a mercados”. Com a justificativa de estimular os produtores, o governo tomou algumas iniciativas legislativas. Uma delas foi a Medida Provisória 1.341/2026, publicada em 12 de março, que propôs uma redução no prazo do regime de drawback para importação de amêndoas de cacau. O drawback permite importar insumos sem pagar tributos, desde que eles sejam usados para a produção de bens para exportação. Esse prazo, que era de dois anos, foi reduzido para seis meses. Produtor de cacau em Valentim Gentil (SP), Grumiero quer vender um produto de qualidade para um nicho — Foto: Gilberto Marques/Divulgação A MP 1.341/26 causou insatisfação à indústria moageira. Segundo dados da AIPC, cerca de 18% das amêndoas destinadas ao processamento no Brasil vêm do mercado externo e, desse volume importado, 99,2% foram sob regime de drawback entre agosto de 2024 e agosto de 2025. Por outro lado, Orlantildes Santos Pereira, presidente da Cooperativa dos Produtores Orgânicos e da Biodiversidade (Coopercabruca), defende a medida como forma de impedir que as indústrias formem estoques para pressionar os preços ao produtor para baixo. “A redução do drawback de dois anos para seis meses torna desinteressante para a indústria importar, processar e vender o produto com valor agregado aproveitando os benefícios fiscais”, avalia. A Coopercabruca reúne 79 cooperados, que produzem perto de 500 toneladas de cacau por ano na região de Itabuna (BA), a maior parte (70%) para exportação. Em 2025, enquanto as exportações de cacau bruto somaram US$ 4,2 milhões, as moageiras responderam por US$ 598 milhões em vendas de derivados (amêndoas, manteiga, pasta e pó) ao exterior. “A MP 1.341 traz uma insegurança jurídica e um freio nos investimentos, porque a gente não sabe como vai conseguir se abastecer no cenário de um país que ainda é deficitário de cacau”, comenta Anna Paula Losi, presidente da AIPC. Outra medida foi a sanção da Lei nº 15.404/26, que dispõe sobre o percentual mínimo de cacau nos chocolates, as definições e características dos derivados e a obrigação de informar o percentual total nos rótulos. A lei responde a uma tendência internacional verificada desde 2024 por parte da indústria de confeitaria, de substituir cacau por outros produtos para limitar o repasse da alta dos custos. A Associação Brasileira da Indústria de Chocolates, Amendoim e Balas (Abicab) ainda está analisando os impactos da medida. E mais uma iniciativa veio em maio, com a publicação de uma portaria do Mapa que instituiu o Plano Inova Cacau 2030 — que visa promover o desenvolvimento sustentável da cadeia produtiva do cacau, aumentando a produtividade, a qualidade, a renda dos produtores e ainda fortalecendo a posição do Brasil como produtor sustentável no mercado internacional. Losi, da AIPC, lembra que o Inova Cacau é resultado de discussão ampla de toda a cadeia, mas não tem recursos próprios e depende de projetos que estão sendo desenvolvidos por outros elos da cadeia. Ela avalia que o sucesso da iniciativa, com efetiva implementação, vai depender da união entre esses elos.