Laranja, pecuarista e cofundador da Fera: baixar a barra socioambiental é um problema para o país — Foto: Divulgação Entre os dias 19 e 21 de maio, a Câmara dos Deputados dedicou três sessões a projetos de lei que afrouxam a legislação ambiental. A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) chamou a iniciativa de “Dia do Agro”, enquanto cientistas, organizações ambientais e parte do setor produtivo a descreveram como um retrocesso sem precedentes no arcabouço de proteção construído nas últimas décadas. Foram 12 propostas levadas ao plenário, parte de uma lista que passava de 30, em uma articulação da FPA com a presidência da Câmara. O afrouxamento cria uma ameaça. A lavoura e a pecuária dependem de serviços que ecossistemas íntegros e áreas verdes prestam naturalmente: manutenção do ciclo de chuvas, regulação térmica, proteção de nascentes, abrigo para polinizadores e garantia da biodiversidade que contém o avanço de pragas, entre outros. Flexibilizar as regras que protegem ecossistemas e áreas verdes coloca pressão sobre esses serviços. “O maior risco para o agronegócio brasileiro não é a política climática, mas sim a própria mudança do clima”, afirma Guarany Osório, doutor em administração pública e governo, professor da FGV Eaesp e coordenador do Programa de Política e Economia Ambiental do Centro de Estudos em Sustentabilidade (FGVces). Para Osório, mudar a legislação para colher resultados rápidos ignora que “os impactos da mudança do clima podem gerar prejuízos econômicos muito superiores aos ganhos de curto prazo”. Marcello Brito, diretor acadêmico da Fundação Dom Cabral (FDC), ex-presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) e enviado especial à COP30, faz a mesma leitura. Para ele, o pacote tenta “derrubar pilar a pilar de qualquer restrição ou de qualquer obrigação que traga deveres”. Entre os projetos aprovados, o de maior alcance pode deixar sem proteção cerca de 48 milhões de hectares de campos nativos. O PL 364/2019 começou tratando dos campos de altitude da Mata Atlântica, mas teve o escopo ampliado pela Comissão de Constituição e Justiça para formações não florestais de todos os biomas. O número, calculado pela SOS Mata Atlântica, equivale à metade do Pantanal, a um terço do Pampa, a 7% do Cerrado e a quase 15 milhões de hectares na Amazônia. Brito, da FDC: hoje, exigências sociambientais são condições de acesso a mercados — Foto: Foto Ana Paula Paiva/Valor Os outros projetos de maior peso seguem na mesma direção. O PL 2.486/2026 reduz a Floresta Nacional do Jamanxim, no Pará, de mais de 1,3 milhão para 814,7 mil hectares. Uma nota técnica das organizações Instituto Socioambiental (ISA) e WWF-Brasil registra que 86,6 mil hectares já foram desmatados de forma ilegal dentro da unidade desde 2006 e cita um estudo do Imazon segundo o qual o desmatamento em áreas recategorizadas foi 1.116% maior do que nas que seguiram protegidas. O PL 2.564/2025 passa a exigir notificação prévia antes de embargos baseados em imagens de satélite, como as do sistema Prodes. Para a relatora, a deputada Marussa Boldrin (Republicanos-GO), a proposta impede “que medidas cautelares sejam utilizadas como punição antecipada”. O PL 5.900/2025 exige manifestação técnica prévia do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) para normas que afetem espécies de interesse produtivo e desloca o poder do Ministério do Meio Ambiente para o Mapa. Luís Laranja, um dos fundadores da Frente Empresarial para a Regeneração da Agricultura (Fera) e sócio-fundador da Caaporã Agrosilvopastoril, afirma que as mudanças na legislação não impedem que o empresário opte por seguir padrões acima do que prevê a lei. “Sempre que baixamos a barra da temática socioambiental, isto é um problema para o Brasil, porque não precisamos disso para crescer”, afirma. Para Laranja, o agro brasileiro tem mais a ganhar incorporando o atributo ambiental do que renunciando a ele. A ofensiva é o capítulo mais recente de uma disputa que se arrasta há anos. Em abril de 2020, no governo Jair Bolsonaro, o então ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, defendeu aproveitar a pandemia para “passar a boiada”, ou seja, afrouxar regras ambientais enquanto a imprensa se ocupava da covid-19. No mesmo período, o governo transferiu para o Mapa a concessão de florestas públicas federais, antes a cargo do Ministério do Meio Ambiente, em um movimento que o PL 5.900 agora retoma por outra via. O desmatamento da Amazônia subiu e a taxa do Prodes (projeto que usa imagens de satélite para monitorar o desmatamento na Amazônia) ficou acima de 10 mil quilômetros quadrados (km²), chegando a 11.594 km² em 2022. O tema se tornou uma das bandeiras de campanhas na eleição seguinte. O então candidato Luiz Inácio Lula da Silva fez do meio ambiente uma vitrine, recebeu o apoio público de Marina Silva, que voltaria a comandar a pasta, e tomou posse, em janeiro de 2023, ao lado do cacique Raoni e de outros representantes da sociedade civil. Em seu mandato, o Fundo Amazônia e a fiscalização foram retomados. O desmatamento caiu ao longo de três anos consecutivos e acumulou redução de cerca de 50% até 2025 na comparação com 2022. Em novembro de 2025, o país sediou a COP30, em Belém, a primeira na Amazônia, onde lançou o Fundo Florestas Tropicais para Sempre e voltou ao centro das negociações climáticas. Para quem acompanha a relação entre pesquisa e legislação há décadas, a ruptura tem data. Mariângela Hungria, pesquisadora da Embrapa Soja e vencedora do World Food Prize (Prêmio Mundial da Alimentação) de 2025, descreve um arranjo que funcionou por 35 anos. Desde 1985, pesquisa, indústria e Legislativo promoviam reuniões com ata, votação e busca de consenso sobre o uso de insumos biológicos. “O Legislativo ouvia muito e considerava o que nós falávamos”, diz Hungria. O modelo durou até 2020, quando um decreto sobre bioinsumos foi editado sem a consulta devida à ciência. “Desde então, a ciência e a pesquisa pararam totalmente de ser ouvidas”, afirma. Em mais de 40 anos de carreira, ela diz nunca ter visto um cenário parecido (leia a entrevista com a pesquisadora nesta edição). Painel no Regenerative Agriculture Forum 2026, em Piracicaba (SP): as possibilidades do agro regenerativo ainda são pouco aproveitadas — Foto: André Henrique Gozetto/Divulgação Essa ciência é a mesma que mede o custo do aquecimento. O relatório conjunto da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO, na sigla em inglês) e da Organização Meteorológica Mundial (OMM), “Extreme Heat and Agriculture”, apresentado durante a COP30, calcula que cada grau adicional na temperatura média do planeta reduz a produtividade global da soja em cerca de 6,8%. No Brasil, a seca e o calor de 2023 e 2024 chegaram a cortar a produtividade da soja em até 20% em algumas regiões, com temperaturas até 7°C acima da média por períodos prolongados. Suínos e aves sofrem acima de 25°C. Na China, o calor reduziu a produção de suínos em 5,6%, com perdas de 10% nas áreas mais quentes. O documento descreve ainda um efeito em cadeia, em que a queda de produtividade empurra a fronteira agrícola para novas áreas e realimenta o desmatamento e o aumento da temperatura. Entre 1992 e 2020, o calor teria levado à abertura de 88 milhões de hectares a mais do que o esperado. Laranja, da Fera, descreve a mesma tendência com outro fenômeno. “O regime de chuvas está mudando. Chove menos dias no ano e, quando chove, são chuvas mais pesadas”, diz. Ele nota que as fazendas mais próximas da floresta recebem mais chuva do que as vizinhas em áreas desmatadas, a poucos quilômetros de distância. “Algumas pessoas acham que um grau não é nada. Mas um grau faz muita diferença na agricultura”, afirma. Para Brito, da FDC, a disputa sobre leis ambientais perde sentido diante de uma mudança maior na ordem do comércio. “Não estamos mais no mundo de mercado globalizado. Estamos no mundo de mercado administrado. Isso muda tudo”, diz. Nesse arranjo, cada país aplica o próprio arcabouço legal para proteger seu mercado, e as exigências socioambientais deixam de ser barreiras tarifárias negociáveis na Organização Mundial do Comércio (OMC) para se tornarem condições de entrada. A União Europeia, lembra, sinaliza desde 2019 que condicionaria o acesso ao seu mercado a critérios ambientais. Diante disso, segundo Brito, o vendedor tem duas opções: atender ao cliente e precificar a exigência ou procurar outro comprador. Para Osório, da FGV, o setor produtivo tem de se preocupar menos em afrouxar regulações e mais em lidar com os efeitos de eventos climáticos extremos sobre energia, logística, crédito, seguros e comércio exterior. “As mudanças climáticas são uma questão econômica e de gestão de riscos e oportunidades para a competitividade do país”, afirma. Ele vê o agro como parte da solução, com ganhos possíveis por recuperação de pastagens degradadas, integração lavoura-pecuária-floresta, reflorestamento, biocombustíveis e agricultura de baixo carbono. “O desafio não é escolher entre produção, conservação, mitigação e adaptação climática, mas integrar produtividade, competitividade e clima”, afirma. Laranja traduz a régua comercial em um exemplo concreto. A norma europeia que barra produtos ligados ao desmatamento, o EUDR, passa a valer para as grandes empresas em dezembro de 2026 e abrange a soja e a carne. Ele avalia que a China, maior compradora de produtos do agro brasileiro, também vai elevar suas exigências. “Se a China mudar seus critérios socioambientais, isso será absurdamente significativo”, afirma. Sua empresa, a Caaporã, adotou o sistema silvopastoril, que integra árvores ao pasto, por equação econômica: a madeira vira receita e a sombra das árvores reduz o estresse térmico do rebanho, que ganha peso com mais eficiência no calor. A fazenda adotou uma braquiária de raízes profundas, mais resistente à seca, desenvolvida pelo centro de pesquisa CIAT, na Colômbia, e começou a cruzar o gado com a raça caracu, mais adaptada ao calor. Laranja opera hoje 20 mil hectares e projeta chegar a 50 mil até 2030. A regra que orienta cada novo arrendamento é não entrar em áreas desmatadas, mesmo que legalmente, nos dez anos anteriores. Segundo ele, essa política abre caminho para crédito e mercados que seus concorrentes não acessam. O modelo não é o único no setor, mas ilustra uma aposta que cresce entre produtores que enxergam na exigência ambiental não um custo regulatório, mas uma vantagem competitiva. “A nossa métrica de sucesso não é o nosso negócio ficar grande. É o nosso negócio ser copiado”, afirma. A visão de ambiente preservado como alavanca para o agronegócio mal começou a ser aproveitada. No Fórum de Agricultura Regenerativa 2026, realizado em Piracicaba no dia 23 de junho, Analí Bustos, diretora estratégica para a América Latina da Naia Trust, cobrou políticas públicas e incentivos que tornem a transição regenerativa viável para o produtor. E lembrou que falta difundir esse conhecimento, já bem estabelecido pela ciência. “Não existe agro sem ecologia e não pode existir ensino de agronomia sem ecologia”, afirmou.