Quem leu por aí que Elon Musk atribui centenas de milhares de mortes da onda de calor à suposta resistência ideológica europeia a aparelhos de ar-condicionado (AC) talvez não saiba da missa nem um terço. É ainda mais calhorda do que parece.

Para início de conversa, não foi o trilionário negacionista que a iniciou, mas um tal de Claude. Ou melhor, um tal de Patrick Collison na rede X, que perguntou à inteligência artificial (IA) sobre controvérsia acerca do AC na Europa e colheu do agente com nome pedante a seguinte pérola, retuitada por Musk:

"A conclusão: Os europeus deveriam simplesmente instalar AC. A preocupação com emissões é insignificante no contexto, a tecnologia funciona, o custo por vida salva é excelente e a resistência cultural é um vestígio de um clima que, como colocou o CCC [Comitê de Mudança Climática], não existe mais. O discurso elaborado em torno de ‘paradoxos do resfriamento’ e ‘direitos sociais ao conforto térmico’ é, em grande parte, uma forma de processar o desconforto psicológico de admitir que a abordagem americana para o verão estava correta o tempo todo".

A IA compra pelo valor de face e revende com lucro a fabulação que culpa as vítimas: europeus estariam morrendo como moscas abatidas pela canícula porque se recusam a instalar AC. Como prova, repete-se que 90% dos domicílios nos EUA têm refrigeração, contra meros 20% no Velho Continente (supõe-se que povoado por luditas dispostos a morrer para sustentar a "farsa do aquecimento global").