Quase duas décadas separam o sequestro do pai do escritor líbio Hisham Matar pelo regime de Muammar Gaddafi, em 1990, do desaparecimento da mãe que estrutura a trilogia de Milton Hatoum inspirada nos anos finais da ditadura militar brasileira.

Embora ocorridas em continentes distintos, as duas ausências se encontraram na tarde deste sábado (25), na tenda principal da Flip, numa conversa sobre memória, literatura e política.

Matar tinha 19 anos quando o pai, um opositor do ditador líbio, foi sequestrado no Cairo e enviado para a prisão de Abu Salim. Nunca mais voltou. Hatoum cresceu ouvindo histórias de amigos cujos pais sumiam durante a ditadura brasileira. Décadas depois, ambos transformaram essas experiências em matéria-prima para seus romances.

A organização da feira literária já havia emitido um aviso de que Matar participaria remotamente, de Londres, por conta de um imprevisto familiar que o havia impedido, na última hora, de vir ao Brasil.

O formato com Hatoum no palco e Matar no telão, apesar de incontornável no contexto, prejudicou a fluidez da conversa, mediada pelo jornalista, escritor e editor Paulo Roberto Pires. Ele optou por uma longa e detalhada apresentação dos autores, seus livros e respectivos prêmios antes de puxar a primeira pergunta sobre as semelhanças entre os personagens dos dois autores.