Mesa reuniu Maria Reva, radicada no Canadá, e Andrei Kurkov, autor de um diário do conflito 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Os escritores Maria Reva e Andrei Kurkov e a jornalista Laura Capelhuchnik na Flip — Foto: Alexandre Cassiano Como narrar a guerra? Esse foi o tema da terceira mesa da 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), realizada nesta quinta-feira (23), às 12h, e intitulada “não vim. não vi. não havia guerra alguma”. Os escritores Andrei Kurkov, que ainda vive em Kiev, e Maria Reva, radicada no Canadá desde a infância, foram entrevistados pela jornalista Laura Capelhuchnik. No início da mesa, a mediadora comentou a escalada do conflito: esta semana, a Rússia lançou ataques aéreos massivos a cidades ucranianas e, na anterior, houve protestos contra a demissão do ministro da Defesa, Mikhailo Fedorov. Autor de “Ucrânia: diário de uma guerra” (Carambaia), registro do conflito em seu país que começou a ser escrito ainda antes da invasão russa, em 24 de fevereiro de 2022, Kurkov disse que está na estrada desde 4 de julho e se sente como se tivesse deixado no fogo uma panela de borsch (ensopado de beterraba e carne, prato típico ucraniano). — É como se eu ligasse todo dia para minha mulher e meu filho em Kiev para saber do borsch que deixei no fogo. A Ucrânia está fervendo! Nós, ucranianos, sempre fomos muito ativos. Os russos são coletivos e esperam ordens para saber o que fazer. Na Ucrânia, somos individualistas, um pouco anarquistas, e temos a tradição de odiar todos os políticos que elegemos — disse o escritor. O escritor ucraniano Andrei Kurkov, autor de "Ucrânia: diário de uma guerra" (Carambaia), na Flip — Foto: Alexandre Cassiano Embora a guerra tenha dominado a conversa, a mediadora fez questão de encaminhar, sempre que possível, a conversa para a literatura e indagou os convidados a refletir sobre os desafios de escrever sobre o conflito e por que ambos abandonaram provisoriamente a ficção após a invasão russa. Reva é autora de “Extinção” (DBA), que ela planejou como um romance cômico sobre o estereótipo da “ucraniana submissa” difundido no Ocidente. Sua protagonista, Yeva, é uma cientista que percorre o país resgatando caracóis ameaçados de extinção, mas se vê envolvida numa trama rocambolesca: sequestrar americanos que viajam para a Ucrânia em busca de esposas para protestar contra a objetificação das mulheres. Quando a Rússia invadiu o país, Reva abandonou o projeto. Mas depois decidiu retomar o livro e incluir a guerra — e a si mesma — na história. — Comecei a escrever o livro em 2018, quatro anos antes da invasão, quando ninguém esperava tanta atrocidade. Estava escrevendo uma narrativa convencional, um romance cômico. Mas a Rússia invadiu e meus parentes na Ucrânia estavam ouvindo as explosões, a vida deles virou de cabeça para baixo. Não podia escrever ficção quando o cenário da história estava sendo destruído em tempo real — contou a autora, cujo avô ainda vive em Kherson, cidade que foi massivamente atacada pela Rússia. — Abandonei a ficção, mas depois de um tempo percebi que as minhas questões sobre a função da ficção e dos escritores no mundo atual, se é moralmente correto transformar a dor e a guerra em arte e se eu mesma era ucraniana o suficiente para escrever essa história, podiam ser compartilhadas com o leitor. Por isso, o livro começa como ficção e acaba como não ficção. Kurkov também estava metido na escrita de um romance quando começou a guerra. Ele disse que, quando ouviu as primeiras explosões em Kiev, esqueceu que era escritor. Junto com a família, partiu para o oeste da Ucrânia. Estava preso num engarrafamento quando recebeu um telefonema de seu editor britânico: — Ele me perguntou: “Você já está escrevendo sobre o que está acontecendo?”. Respondi que estava preso no engarrafamento e ele disse: “Você deveria escrever, porque ninguém no Ocidente tem ideia do que está acontecendo na Ucrânia” — recordou Kurkov, que não se sentia capaz de escrever ficção. — Minha imaginação estava bloqueada, minha cabeça estava presa na guerra. Ler e escrever ficção é prazeroso e sentir prazer durante a guerra é imoral. Dois anos e meio depois, fiquei bravo comigo por não escrever ficção e percebi que talvez não tenha tempo depois da guerra. A Rússia não vai desaparecer. Em julho de 2024, me forcei a terminar o romance e fiquei feliz porque agora consigo escrever ficção de novo. Língua e humor Recentemente, ele terminou um novo romance ambientado na Ucrânia dos dias de hoje e que explora as consequências do conflito. Tanto Kurkov quanto Reva são ucranianos russófonos e rejeitam a associação automática entre falar russo e apoiar Vladimir Putin. — É complicado, mas tenho que lembrar que a língua não é uma filiação política — disse Reva, que começou a aprender ucraniano, mas não pôde dar muita sequência às aulas por estar ocupada viajando para falar de “Extinção”. Ela diz que seu nível de ucraniano é equivalente ao de uma criança. A escritora ucraniano-canadense Maria Reva, autora de "Extinção" (DBA), na Flip — Foto: Alexandre Cassiano Kurkov disse que, na juventude, escrevia poemas em russo, ucraniano e inglês e que a língua escolhida mudava necessariamente o conteúdo dos versos: — Os poemas russos eram cheios de absurdo, os ucranianos eram engraçados e os poemas em inglês eram tristes — disse ele, arrancando gargalhadas da plateia. — Quando começou a guerra, eu quis calar a boca, porque tenho vergonha do russo. Temos que apoiar uma língua que está sob ataque desde 1750, quando Pedro, o Grande, proibiu a impressão de textos religiosos em ucraniano. Kurkov também falou sobre o cotidiano da Ucrânia em guerra. Lembrou que há mais de uma centena de escolas subterrâneas e que, em cidades como Kharkiv, perto da linha de combate, os cafés já não se incomodam mais em trocar vidraças destruídas pelos bombardeios. Ainda assim, os estabelecimentos estão sempre cheios e os ucranianos, temendo a inflação, gastam o que podem mandando suas esposas e filhos de férias para países próximos, como o Egito e a Turquia. Os dois escritores também ressaltaram a importância do humor em tempos de guerra e Kurkov terminou a mesa com uma piada: — O diabo fez um tour pelo inferno com Richard Nixon (ex-presidente americano), François Mitterrand (ex-presidente francês) e Putin. Chegaram a uma sala com telefone e Nixon perguntou se podia ligar para a Casa Branca. O diabo disse que sim, mas que custaria 5 milhões de dólares por cinco minutos. Nixon topou. Depois, Mitterrand quis ligar para Paris e o diabo disse que custaria 5 milhões de euros por cinco minutos. Quando Putin quis ligar, o diabo disse que custaria apenas cinco centavos. Nixon e Mitterrand perguntaram por que eles pagaram tão caro e Putin tão barato e o diabo respondeu: “Porque as ligações de vocês foram internacionais, a dele é local”.