Um bloqueio criativo tomou conta dos autores ucranianos Maria Reva e Andrei Kurkov quando a Rússia invadiu a Ucrânia, em 24 de fevereiro de 2022. Como escrever ficção quando uma realidade atroz se descortina à sua frente?

Naquele momento, Kurkov estava em Kiev escrevendo um romance e fugiu para o oeste do país quando os primeiros mísseis atingiram a capital ucraniana. Reva estava no Canadá, onde vive desde os sete anos, e trabalhava em sua obra "Extinção", publicada no Brasil pela DBA.

"Escrever ficção demanda uma imaginação muito ativa, mas a guerra mata a imaginação. Você fica preso nas tragédias da realidade", disse Kurkov em mesa ao lado de Reva na Feira Literária Internacional de Paraty (Flip) nesta quinta-feira (23). "Escrever e ler ficção são prazeres, e ter um prazer durante a guerra me parecia imoral."

Para ele, a saída foi deixar de lado seu romance e começar a escrever um diário sobre tudo o que estava ocorrendo. "Ucrânia: Diário de uma Guerra", da editora Carambaia, reúne os dois primeiros volumes de seus diários sobre a vida na Ucrânia após a invasão da Rússia. O terceiro volume, "Three Years on fire", foi publicado no final do ano passado em inglês

Para Reva, escrever ficção naquele momento não parecia relevante. "Como posso escrever um livro se o cenário está sendo destruído em tempo real? "