O escritor Andrei Kurkov conta que os ucranianos não acreditam mais quando o presidente Volodymyr Zelensky fala em acabar com a guerra e iniciar negociações de paz “até o fim do ano”. “Sabemos que, enquanto a Rússia puder lutar, não abandonará seus planos de ocupar nosso país”, escreveu no epílogo à nova edição de “Ucrânia: diário de uma guerra”, recém-publicado pela editora Carambaia. No fim de 2021, ele começou a escrever um diário da guerra que já se anunciava (a invasão russa ocorreu em 24 de fevereiro do ano seguinte). Abandonou até a ficção para se concentrar no projeto — e em sobreviver. Kurkov ainda vive em Kiev e escreve seus diários em inglês, língua de sua esposa, para agilizar a circulação no Ocidente. A ficção, que ele só conseguiu retomar passados mais de dois anos do conflito, ele escreve em russo. De passagem por Paris, o escritor ucraniano concedeu uma entrevista por vídeo ao GLOBO, antes de chegar ao Rio para participar da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) com a escritora ucraniano-canadense Maria Reva, autora de “Extinção” (DBA). Os dois vão falar sobre como a guerra transformou seus projetos literários e dos desafios de narrar o conflito. Por que os ucranianos não acreditam mais nas promessas de Zelensky de acabar com a guerra e iniciar negociações de paz “até o fim do ano”? A situação tem mudado todos os dias há meses. Zelensky lançou um plano de 40 dias para forçar Putin a negociar e está atacando petroleiros russos no Mar de Azov e no Mar Negro. É uma maneira de pressionar a Rússia mais no campo econômico do que no militar. Putin não vai ceder à pressão. Vai lutar até o fim, esta é sua última guerra. Se negociar, os russos o verão como um fraco, que não aguentou a pressão ucraniana. Acho que o conflito vai escalar ainda mais e que o próximo inverno pode ser muito perigoso para a Ucrânia. Ao mesmo tempo, a Rússia não tem tido sucesso no front e os drones ucranianos controlam o céu. Acredita que aumentarão os ataques de ambos os lados? O primeiro míssil balístico ucraniano foi testado recentemente. Se a produção desses mísseis for bem-sucedida, definitivamente os ataques à Rússia vão aumentar. Haverá mais ataques com drones a petroleiros e à infraestrutura de apoio do Exército russo. Então, sim, os dois lados devem escalar o conflito. A diferença é que a Ucrânia tenta alcançar objetivos técnicos, enquanto a Rússia está aterrorizando cidades e matando civis. Na última sexta-feira circulou a informação de que Putin mandou seu exército destruir cidades próximas à linha de combate, como Sumy, Chernigov e Kharkiv. Em breve mais pessoas precisarão ser retiradas, o que vai pressionar a Ucrânia ainda mais. Semana passada, houve protestos na Ucrânia contra a demissão do ministro da Defesa, Mikhailo Fedorov. Como avalia a situação? Fedorov é conhecido por duas coisas: por aumentar os ataques com drones e interromper a corrupção no Ministério da Defesa. Os ucranianos desconfiam que ele tenha sido demitido por exigência dos generais que pararam de ganhar dinheiro com corrupção. A situação é muito ruim. O comandante das Forças Armadas, Oleksandr Sirskii, está sendo muito criticado. Ele tentou evitar que o Exército se manifestasse sobre o caso, mas há muitos vídeos de soldados dizendo que o comandante está errado e que eles apoiam Fedorov, não Sirskii. Ataques na Ucrânia deixam catedral de Kiev em chamas; 11 pessoas morreram Na imprensa ucraniana, o jornalista Vitalii Sitch escreveu que “em momentos difíceis, Zelensky se comporta como um herói”, mas que, com frequência, muitas dessas situações são causadas por suas “decisões idiotas”. Zelensky não tem mais a equipe que ele montou quando chegou ao poder. Eles caíram por acusações de corrução. Suponho que ele tome todas as decisões sozinho. Não acho que ele se aconselhe com [o chefe de Gabinete, Kyrylo] Budanov ou [o ex-comandante das Forças Armadas e hoje embaixador Valery] Zalujny. Zelensky também pensa muito nas próximas eleições, o que é péssimo. Se um político só pensa em eleições, ele se esquece da realidade. Não acho que seja possível realizar eleições em plena guerra. Conflitos em Gaza e no Irã desviaram o olhar do Ocidente da guerra na Ucrânia. A comunidade internacional precisa se colocar com mais firmeza ao lado do país? O apoio da Europa é consistente, mesmo depois que Trump praticamente nos abandonou. Os europeus sabem que, se perdermos a guerra, os próximos alvos de Putin são os países bálticos e a Polônia. Putin não se importa com o futuro da Rússia, mas apenas com seu ego. Ele quer morrer como um vencedor, como o líder que fez a Rússia grande novamente. Os EUA sabem que a Rússia é como o Irã: é impossível lidar com eles. A China é mais cautelosa, vende drones para os dois lados e tira proveito do enfraquecimento econômico da Rússia. Cada vez mais, a América Latina e a África estão entendendo que esta não é uma guerra da Rússia contra “fascistas”. Parte dos intelectuais latino-americanos achava que a guerra era contra os Estados Unidos, mas, como Trump não está mais do nosso lado, entendeu que é contra a Ucrânia independente. Como a guerra impacta a vida em Kiev? As pessoas que permaneceram na Ucrânia sabem que estão em perigo. Em Kiev, ninguém dorme à noite. Ou por causa do barulho das sirenes, ou porque está acordado esperando o barulho das sirenes. De manhã, você se entope de café para se manter acordado e vai trabalhar. Aceitamos que a guerra pode durar muito tempo, que podemos morrer, perder nossos familiares, nossos amigos, nossas casas. Para continuar funcionando, perdemos o medo da guerra e nos tornamos mais fatalistas. Eu achava que só conseguiria voltar a escrever ficção depois da guerra. Até que entendi que não talvez não exista um “pós-guerra”. Talvez a guerra se torne um estado permanente. Então, temos quenos adaptar. Por isso, voltei a escrever ficção, ao mesmo tempo em que escrevo os diários. Veja as mais recentes ofensivas russas contra a Ucrânia 1 de 7 Bombeiros ucranianos trabalham para conter as chamas após ataque de drone russo atingir a cidade de Kharkiv na quarta-feira (27) — Foto: Handout / Ukraine's State Emergency Service / AFP 2 de 7 Ataque de drone russo em Kharkiv na Ucrânia deixou cidade em destroços — Foto: SERGEY BOBOK / AFP X de 7 Publicidade 7 fotos 3 de 7 Um ataque de míssil russo à cidade ucraniana de Sumy feriu 65 pessoas no dia 24 de março de 2025 — Foto: Yevhen ABRASIMOV / AFP 4 de 7 Entre os 65 feridos do ataque de míssil a cidade ucraniana de Sumy, 14 eram crianças — Foto: Yevhen ABRASIMOV / AFP X de 7 Publicidade 5 de 7 Prédio residencial é destruído, após um ataque de drone em Kiev no dia 23 de março — Foto: Genya SAVILOV / AFP 6 de 7 Paramédicos resgatam idosa que estava perto do prédio residencial que sofreu ataque de drones em Kiev no sábado (23) — Foto: Genya SAVILOV / AFP X de 7 Publicidade 7 de 7 Paramédicos socorrem vítimas após prédio residencial ser atingido por ataque de drones — Foto: Genya SAVILOV / AFP Rússia e Ucrânia voltam a trocar acusações sobre a falta de compromisso com o processo de paz no Leste Europeu O senhor afirma que a guerra fortaleceu a identidade ucraniana. Como descrever essa identidade? No século XVII, a Ucrânia era um território independente governado por cossacos que elegiam seus líderes. Nunca tivemos uma família real. Há uma tradição democrática e até anárquica na Ucrânia. Temos orgulho de nossas opiniões e estamos sempre prontos a discutir. Somos individualistas e só nos tornamos um coletivo na hora de protestar. Se não gostamos de alguma coisa, vamos às ruas, gritamos nas redes sociais. Preferimos liberdade à estabilidade. Não gostamos dos nossos líderes, que elegemos só para culpá-los por tudo depois. A guerra deu nova energia à nossa mentalidade individualista. Os russos são o contrário disso. Desistem da liberdade em nome da estabilidade e elegem czares que ficam no poder até a morte. São passivos politicamente, preferem o exílio ao protesto. O senhor é um ucraniano russófono. Até que ponto a identidade nacional está ligada à língua ucraniana? A identidade está intimamente ligada à língua, mas até os separatistas pró-russos de Donbass têm uma mentalidade ucraniana. Eles ganham cidadania russa, mas começam a protestar e são colocados na cadeia. Os russos não confiam nem nos ucranianos que estão do lado deles. Estimo que entre 10% e 15% dos ucranianos falantes de russo sejam ativa ou passivamente pró-Rússia. A maioria é anti-Rússia. Kharkiv, por exemplo, é uma cidade russófona que resistiu à invasão, para a surpresa dos russos. De que maneira a cultura ucraniana tem sido alvo da Rússia? Uma das maiores vítimas da guerra é a cultura ucraniana. Mais de 300 escritores, poetas e tradutores morreram, mais de 800 livrarias foram destruídas ou danificadas. A Rússia tem destruído ativamente prédios históricos e museus. Em Kiev, vários museus estão fechados porque foram atingidos por mísseis. É um ataque terrível à nossa cultura e à nossa identidade.