Convidado da Flip que participa de mesa no sábado (25), escritor da Guatemala une memória, passado familiar e História de seu país em livros que formam um grande quebra-cabeça literário 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Eduardo Halfon, escritor da Guatemala convidado da Flip 2026 — Foto: Divulgação/Vanessa Lara RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você Convidado da Flip, o escritor guatemalteco Eduardo Halfon lança no Brasil uma edição ampliada de 'O boxeador polonês', livro que mescla sua história pessoal com a herança judaica e a guerra civil de seu país. Formado em engenharia e criado em um lar sem o hábito da leitura, escritor redescobriu a literatura aos 28 anos e iniciou um processo de recuperação do espanhol, idioma no qual escreve sob influência direta do inglês. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Ainda pairava no ar a eletricidade de um mata-mata da Copa do Mundo quando começou a videochamada, e o semblante vulpino de Eduardo Halfon traía certa contrariedade. O plano do autor guatemalteco era passar a tarde escrevendo, mas acabou distraído pelo áudio de uma TV vizinha e a uma creche próxima. O apego àquelas horas de trabalho tinha explicação: Halfon, que hoje vive em Berlim, estava com a mulher e o filho na Cidade da Guatemala, sua terra natal, para onde retorna todos os anos em férias que se tornaram uma espécie de retiro de escrita. Há uma taxa psicológica a ser paga na alfândega da Europa para a América Central (“Nossas metrópoles latinas são caóticas; aqui é outro nível de paranoia e violência”, comenta). Após alguns dias, porém, o choque dá lugar à familiaridade. — Quando estou aqui, começo a escrever de outra maneira. As lembranças vão surgindo, como se fossem ativadas por certas coisas e imagens. Acabam entrando no texto coisas que, acho eu, não voltariam em nenhum outro lugar — conta o escritor de 54 anos, que calcula ter passado metade da vida fora da Guatemala, depois de viver nos Estados Unidos e em Paris. Há mais de duas décadas e mais de 20 livros (todos meticulosamente curtos), Halfon vem construindo uma obra ancorada na sua memória e na História de seu país, fórmula que ganhou projeção internacional com “O boxeador polonês”, de 2008. Lançado inicialmente no Brasil pela Rocco, o título ganha agora uma nova edição da Autêntica Contemporânea, ampliada com textos originalmente publicados em outro livro, “A pirueta”. Convidado da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), ele participa, ao lado de Paloma Vidal, da mesa "A saída é a volta", no sábado (25), às 10h, com mediação de Gabriela Mayer. Na segunda (27), faz sessão de autógrafos na Livraria Travessa de Ipanema, Zona Sul do Rio, a partir das 19h. Quebra-cabeça literário Em “O boxeador polonês”, Eduardo Halfon inventou um personagem que carrega seu próprio nome e parte de sua biografia. Assim como seu criador, o “outro Halfon” vem de um lar judaico na Guatemala, partiu com a família para a Flórida aos 10 anos, fugindo da guerra civil, formou-se em engenharia nos Estados Unidos e, numa reviravolta, voltou ao seu país para se tornar professor de literatura e escritor. Essa trajetória é entregue aos poucos, em textos que misturam humor, melancolia e, claro, deixam no ar a dúvida: o que é real? O autor abre um sorriso na barba cerrada ao entrar no tema. — Eu convido o leitor a me fazer essa pergunta. Desde o início, escrevo nesse limite entre autobiografia e invenção. Dou ao narrador, por exemplo, o meu próprio nome. Eu digo ao leitor: é ficção, é conto, é romance, mas faço todo o possível para que não pareça — diz ele, ressaltando que o “outro Halfon” tem uma desenvoltura que ele inveja, se atreve a dizer coisas que ele não diria; além disso, fuma e bebe bem, sendo que seu criador não consome cigarros nem álcool. Nos livros seguintes, segue o jogo de espelhos. Em “A pirueta”, o personagem se aventura pela Sérvia atrás de um pianista cigano que surgiu no livro anterior. Em “Luto” e “Canción”, ambos lançados aqui pela Mundaréu, mergulha no passado da família: primeiro, o lado paterno (que inclui um avô polonês que sobreviveu ao Holocausto); depois, o materno, ao contar o caso do outro avô, imigrante libanês sequestrado pela guerrilha guatemalteca. O mais recente, “Tarântula”, editado aqui pela Autêntica ano passado, explora sua relação a herança judaica. Completam este painel “Monasterio” e “Signor Hoffmann”, ainda não lançados no Brasil. São sete livros que podem ser lidos individualmente, mas também funcionam como peças de um quebra-cabeça literário, em que personagens e episódios ressurgem com novos sentidos. Um mosaico que o autor confessa não saber quando nem onde termina. — Eu achava que “Tarântula” encerraria tudo, porque seu final me parece um desfecho digno. Mas há um personagem que ainda quer continuar falando. Trabalho o tempo todo, mesmo sem saber exatamente no quê e agora intuo que estou escrevendo o oitavo livro do outro Halfon. Que talvez não seja o último — analisa o autor, já vislumbrando por trás dos óculos os próximos anos de escrita. — Talvez eu tenha que matar esse narrador para essa história acabar. Ou talvez ele tenha que me matar primeiro. Inglês para espanhol Halfon, que começa escrevendo sem planos para depois colocar em cena o engenheiro que estrutura o texto, define seu estilo como “econômico”. Sua prosa tem muito mais da precisão e clareza de americanos como Ernest Hemingway e de Raymond Carver do que dos volteios associados à certa tradição latino-americana. Pudera: ele pensa em inglês. O espanhol, praticamente abandonado na adolescência, voltou a fazer parte do cotidiano quando, formado em engenharia dos EUA, viu expirar seu visto de estudante e teve de voltar à Guatemala “muito frustrado e deslocado; não entendia o país, o idioma, nada”. Começou a trabalhar como engenheiro, mas uma crise existencial o levou a buscar a faculdade de Filosofia — que, na verdade, era também de Letras, área totalmente alheia a alguém criado em “um lar de não leitores”. — De repente, aos 28 anos, me apaixonei pela literatura. E, ao começar a ler, comecei a escrever e iniciar um processo de recuperação do espanhol no qual sigo imerso. Leitores da Espanha e da América Latina leem meus textos e dizem: “Este espanhol está um pouco estranho”. Há muito inglês ali. O uso do verbo, a posição da vírgula, o lugar onde coloco o adjetivo — explica o autor, que às vezes faz engenharia reversa, buscando soluções para a escrita passando o texto do espanhol para o inglês. Esse desassossego linguístico é também geográfico e religioso. Tendo vivido em vários países sem jamais se sentir parte deles, Halfon escreve em “Tarântula” (e aí, criador e narrador convergem) que seu abandono do judaísmo foi “como a saída silenciosa de uma festa, sem dizer nada e sem me despedir de ninguém”. O que não o exime de comentar a atual situação em Israel e Gaza. — É um tema dolorosíssimo para mim. É trágico e inaceitável o que o governo de Netanyahu está fazendo — diz o autor, referindo-se a uma situação que, de certa forma, vê antecipada em seu premiado romance, concluído antes do ataque do Hamas que desencadeou o atual conflito. — O acampamento para jovens judeus de “Tarântula” e a educação que se quer dar àquelas crianças ajudam a explicar muito do que está acontecendo hoje. Porque isso vem de décadas. Não começou em 7 de outubro de 2023. Estes dias, no entanto, seu olhar está voltado para o Brasil. Ele já esteve aqui anos atrás, quando a esposa estudava em Belo Horizonte, e conheceu Minas e São Paulo, e agora, que tem curiosidade para o que vai encontrar em Paraty e no Rio. Curiosidade e um pouco de ansiedade: está sofrendo por antecipação da viagem há duas semanas. — Mais uma prova de que sou diferente do meu narrador — sublinha o autor. — O outro Halfon se vira muito bem pelo mundo; eu me viro muito mal. O boxeador polonês Autor: Eduardo HalfonTradução: Silvia Massimimi FelixEditora: Autência ContemporâneaPreço: R$ 69,80Páginas: 184
Eduardo Halfon: ‘É ficção, mas faço todo o possível para que não pareça’
Convidado da Flip que participa de mesa no sábado (25), escritor da Guatemala une memória, passado familiar e História de seu país em livros que formam um grande quebra-cabeça literário














