Segundo livro mais vendido da 14ª Flip, 'O século dos imbecis' é espelho crítico da nossa relação com as redes sociais e a tecnologia 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Valter Hugo Mãe em Paraty — Foto: Alexandre Cassiano/ Agência O GLOBO RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você Lançado na Flip, o novo romance do autor português utiliza a sátira para criticar a perda do senso crítico e o impacto das redes sociais e da inteligência artificial na identidade humana. O novo romance do escritor português, que figurou entre os mais vendidos da Flip, inicia uma fase literária focada no sarcasmo e na crítica direta à contemporaneidade. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Nos últimos anos, Valter Hugo Mãe se tornou uma dessas presenças incontornáveis da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), arrastando multidões por onde se apresenta. Nesta 24ª edição, encerrada anteontem, o autor português teve agenda cheia. Do primeiro ao último dia, participou de cinco mesas lotadas dentro da programação paralela para lançar seu mais novo romance, “O século dos imbecis” (Biblioteca Azul). Na agenda de lançamentos, estará dia 30, às 19h, no Auditório Agostinho da Silva, Embaixada de Portugal, em Brasília, e dia 1º, às 18h, na Livraria Martins Fontes, em São Paulo. A maratona na cidade histórica o ajudou a se tornar um dos autores best-sellers do evento, segundo a lista divulgada pela organização no domingo. Na obra que apresentou, Valter explora sua veia satírica e oferece uma fábula sobre uma comunidade montanhosa imersa na mesquinharia, no boato e na perda do senso crítico. Espelho crítico da nossa relação com a internet e a tecnologia, o livro acompanha um protagonista que vive sob uma curiosa regra filosófica: quanto mais sobe a montanha, mais lúcido se torna; quanto mais desce em direção à vila, mais embrutecido fica. Em Paraty, Valter conversou com o GLOBO sobre a necessidade de assumir um tom mais crítico num mundo cada dia mais dominado por respostas prontas. Você celebra 30 anos de carreira na Flip. Que papel o festival teve na sua trajetória? A Flip virou um fenômeno na minha vida. Ofereceu à minha vida algo da dimensão do fenômeno e hoje é tudo uma alegria regressar, poder regressar e ver também a Flip transformada, exponenciada. Cresceu muito, complexificou. Li algures que durante esses dias existiam mais de mil mesas. É um absurdo de oferta, que eu não vou dizer que é muito porque quero mais. No sentido em que, mesmo assim, mesmo com mil mesas, a gente sempre sonha encontrar mais alguém. Há sempre um autor que a gente pensa: “Este ano não veio”, e eu gostaria de encontrar. Então virou uma terra de pura fantasia literária. Você comentou que a Flip mudou muito nesses anos. A sua escrita também? Eu acredito que alguma coisa muda. Tenho alguma avidez por fugir daquilo que já escrevi, por isso, de livro para livro, vou acrescentando alguma coisa ou procurando alguma coisa que não era procurada antes. “O século dos imbecis” inaugura um ciclo que me proponho escrever agora, que tem o sarcasmo e uma tradução da contemporaneidade mais direta. Vai tanto para a alegoria quanto para a paródia. Você chegou a esse lugar porque acredita que o mundo atual exige posicionamento? Nós estamos a assistir a uma certa derrocada da justiça e da ética. Sou licenciado em Direito, confinado pela necessidade de obedecermos a parâmetros de justiça. Precisamos de sistemas de justiça para nos contermos, mas também para nos potenciarmos. Estamos num tempo em que, depois da pandemia, abriu-se uma mensagem em que todas as vilanias se têm vindo a normalizar. O racismo, a xenofobia, o machismo, tudo quanto parece ter o pé no ódio vem sendo mais e mais defendido e posto em prática. Este livro é um instrumento de conscientização? Se eu acredito que vou poder fazer alguma coisa para impedir a hecatombe? Não acredito. Mas não poderia deixar de ser testemunha. Acho que o mínimo que nós podemos fazer é reconhecer que estamos piorando como espécie. No livro fica claro que uma mudança só é possível com escolhas individuais. No caso, a alegoria sobre subir ou descer a montanha... Você tem que decidir se quer viver no mundo como os outros impõem ou se quer viver no mundo em que acredita. Ficar esperando que alguém venha entregar um mundo em que você acredita pronto para consumo não é só ingênuo, é leviano. Se você acredita no mundo de uma determinada maneira, instale-o ao seu redor. Faça o seu gesto corresponder à sua convicção ética. O “século” referido no livro é marcado por respostas prontas, julgamentos rápidos e ausência de questionamentos... Eu queria muito aludir a esta época em que subitamente facilitamos de tal maneira a nossa vida, que parece tão facilitada por todos os instrumentos que a Humanidade soube produzir, que estamos diante de um dilema: saber se a máquina que criamos vai apenas fazer o que nós faríamos ou se ela vai ser o que nós seríamos. Dá a sensação de que há uma euforia em muita gente que entrega não só os afazeres, mas inclusive as identidades. Alguns personagens do livro lembram esse tipo muito presente hoje nas redes sociais, pessoas que vivem do engajamento e fofocas. Como é a sua relação com esse ecossistema da internet? Você participa ou observa de fora? Eu estou lá. Não quero ser uma criatura que não saiba eventualmente o que as coisas são. Não poderia ter um pensamento crítico sem poder sujar um pouco as mãos. Tenho, por exemplo, redes sociais. Gosto da ideia disso, ser um conector entre pessoas à distância, entre pessoas que nunca se viram, e que exista até esse conceito estranho de sermos amigos de quem nunca vimos. E a inteligência artificial? Semana passada, pela primeira vez, usei uma plataforma de inteligência artificial para criar umas imagens. Pedi imagens minhas no estilo de Chagall. De repente, a máquina produz uma resposta assombrosa. Como é possível imitar um Chagall em poucos segundos? E a gente ser qualquer coisa que queira ser no quadro. Passei dois ou três dias meio intoxicado com aquilo. O que me assusta é que a plataforma lida comigo apelando a uma empatia que eu não consigo corresponder. Empatia? Ela cumprimenta, diz: “Olá, Valter, que bom que veio outra vez. Que boa ideia que você teve. Você prefere fundo azul ou fundo verde?” Eu digo: “Fundo azul.” E ela responde: “Que boa ideia, Valter. Acho que vai ficar muito bem.” Aquilo é assustador, porque, se alguém aqui devia ser educado, sou eu. Como um algoritmo tem a veleidade, a desfaçatez, de imitar o melhor de mim? Há uma inversão de papéis. Parece que eu não estou só entregando à máquina aquilo que não quero ou não sei fazer. Estou entregando à máquina aquilo que eu deveria ser. As pessoas deixaram de pensar por si mesmas? Se eu for criado nesse ambiente, com essa oportunidade de mandar uma máquina fazer qualquer coisa, inclusive pintar um Chagall, não vou ter motivo nenhum para aprender a pintar, eventualmente. As pessoas que escolherem essa via talvez já sejam hoje uma minoria maravilhosamente aberrante, mas vão ser uma minoria cada vez mais aberrante, vistas quase como alucinadas de milagre. Porque, em torno delas, a multidão vai estar incapacitada, perdida dos fazeres. No fim do caminho, quem conseguir simplesmente andar para a frente numa linha reta vai ser um herói. Serviço Livro: ‘O século dos imbecis.’ Autor: Valter Hugo Mãe. Editora: Biblioteca Azul. Páginas: 344. Preço: R$ 84,90.
Valter Hugo Mãe faz alegoria sobre a estupidez contemporânea em novo livro: 'Estamos piorando como espécie'
Segundo livro mais vendido da 14ª Flip, 'O século dos imbecis' é espelho crítico da nossa relação com as redes sociais e a tecnologia









