Nesta semana, tivemos mais uma onda do tarifaço, e, em meio a tudo isso, uma pergunta intrigante fica no ar e que recentemente o Financial Times trouxe a público: Trump está vencendo a guerra tarifária? A resposta parece simples. Mas, antes de perguntar se Trump está vencendo a guerra tarifária, precisamos responder a outras questões: como se mede a vitória em uma guerra comercial? Pelo dinheiro arrecadado? Pela volta das fábricas? Pela redução da dependência da China? Ou pelo impacto sobre o consumidor?Dependendo do critério escolhido, a resposta muda completamente. As tarifas elevaram a arrecadação americana, reduziram as importações vindas diretamente da China e passaram a ser apresentadas como um instrumento permanente da política econômica dos Estados Unidos. A arrecadação recorde com tarifas gerou US$ 24 bilhões em junho (aproximadamente 5% da arrecadação federal do mês) para os EUA – vitória 1. Já a participação da China nas importações americanas caiu de cerca de 21%, em 2016/2018, para menos de 8% nos 12 meses encerrados em maio passado – vitória 2.Boa parte das importações da China pelos EUA foi ocupada por países como Vietnã, México, Malásia e Tailândia Foto: Mark Schiefelbein/APApesar das tarifas, a manufatura americana continua apresentando crescimento modesto. Reduzir importações não significou, até o momento, reindustrializar os EUA – derrota 1. A ausência de uma inflação expressiva não significa que as tarifas não tenham custo. Parte do ajuste ocorreu por meio da redução das margens de lucro de fabricantes e varejistas, da utilização de estoques acumulados, da substituição de fornecedores e até da redução da qualidade dos produtos – derrota 2.Leia tambémO novo gargalo: o problema não é apenas fazer o petróleo sair de onde é produzido; é processá-loA IA está mudando a economia mundial, mas para isso usa uma quantidade gigantesca de capitalA economia mundial insiste em não obedecer ao roteiro esperado, escrito por guerras e dívida públicaPUBLICIDADEUm placar meio ambíguo, mas a limitação do debate atual é medir apenas de onde vem a mercadoria, quando o mais importante seria saber quem controla sua produção.Boa parte das importações da China foi ocupada por países como Vietnã, México, Malásia e Tailândia. Dados levam a acreditar que ocorreu uma reorganização das cadeias globais de produção: componentes continuam sendo produzidos na China, enquanto apenas a etapa final da montagem passou a ocorrer em países que enfrentam tarifas menores.PublicidadeE a China está perdendo com isso? As exportações chinesas para o restante do mundo continuaram crescendo. Em 2025, o país registrou um superávit comercial superior a US$ 1 trilhão, o maior de sua história.O Federal Reserve (o BC americano) publicou, em julho de 2026, um estudo mostrando que grande parte do crescimento das exportações do Vietnã para os EUA ocorreu por meio de empresas chinesas que transferiram parte de sua produção para o Vietnã. Não se trata apenas de fraude ou troca de etiquetas; trata-se da realocação das fábricas e das cadeias produtivas chinesas. Os EUA deixaram de comprar produtos “made in China”, passaram a comprar “made by China”.