Otaviano Canuto avalia que tarifas de Trump jogam o Brasil nos braços da China, o ganhador do ponto de vista diplomático. Para ele, há espaço para negociar 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Otaviano Canuto, ex-vice-presidente do Banco Mundial — Foto: Agência O Globo RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 23/07/2026 - 22:22 Ex-diretor do Banco Mundial critica tarifas de Trump e impacto no Brasil Otaviano Canuto, ex-diretor do Banco Mundial, critica a estratégia tarifária de Donald Trump, que afeta diversos parceiros comerciais, incluindo o Brasil. Ele destaca que a postura dos EUA beneficia diplomaticamente a China e não atinge seus objetivos econômicos. Canuto aponta a necessidade de negociações estratégicas, enfatizando a importância dos minerais críticos brasileiros. As tarifas são vistas como instrumentos políticos, com impacto limitado na redução do déficit comercial dos EUA. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Em seu segundo mandato, Donald Trump trocou o embate comercial com a China por uma batalha tarifária com todos os parceiros comerciais simultaneamente. Para Otaviano Canuto, ex-vice-presidente do Banco Mundial e pesquisador do centro de estudos Policy Center for the New South, o resultado beneficia Pequim do ponto de vista diplomático, ao ampliar sua influência sobre países como o Brasil. Além disso, a estratégia não reduz o déficit externo nem alcança a meta de reindustrializar os EUA. Para o Brasil, alvo de uma tarifa acumulada de 37,5%, resta pouca margem para fugir da taxação, mas ainda há espaço para negociar contrapartidas pontuais, avalia. Um trunfo nessa estratégia é o interesse dos EUA em minerais críticos, mas é preciso garantir contrapartidas a qualquer concessão nessa área. Veja trechos da entrevista abaixo. Somos o segundo país mais taxado. Ser uma economia fechada amortece o impacto? Nossa conta de exportações é menor do que seria se o país fosse aberto. Se fôssemos uma economia aberta, nossas cadeias seriam mais competitivas porque importaríamos componentes mais baratos. Ser fechado é ruim porque afeta nossa produtividade. As tarifas vieram para ficar? Viraram instrumento de arrecadação? Paradoxalmente agora, o governo está tendo de devolver parte do que foi coletado (de tarifas derrubadas pela Suprema Corte). Trump alude à criação de receita via tarifas como um fator favorável, mas a lei que ele conseguiu aprovar no ano passado gera déficit fiscal por causa das isenções tributárias. Essa arrecadação é contraditória com o objetivo dele de substituição de importações porque se você parar de importar, para de arrecadar. Quem paga a tarifa é o americano que compra ou a empresa que absorve o prejuízo na margem de lucro. Não é uma solução mágica para o problema fiscal americano. Jamieson Greer, o assessor de Trump que é Representante de Comércio dos Estados Unidos — Foto: Kent Nishimura/Bloomberg As eleições de meio de mandato podem frear essa ofensiva tarifária? Ele vai continuar. Vai abrir (investigação na) Seção 301 com qualquer desculpa, assim como abriu contra o Canadá, instrumento que nunca foi usado. Sempre vai encontrar uma justificativa legal. A questão é se, em cada um desses mecanismos, há necessidade ou não de o Congresso corroborar. Esses pesos e contrapesos ficarão mais claros se os republicanos perderem a maioria que têm hoje. Isso pode abrir oportunidade para contestação pelo Legislativo. Como se negocia a saída de uma tarifa que vale para 60 países? Não há mecanismo que possa impedir esses países grandes de, se quiserem, impor tarifas, até porque não tem um sistema multilateral na Organização Mundial do Comércio que lhes dê punição. As tarifas recíprocas de Trump são um acinte contra o princípio básico da OMC. O que esperar então de um diálogo entre Brasil e EUA? Esperar que haja demandas pelo lado deles com contrapartidas que não sejam impossíveis ou inadequadas, como cortar o acesso da China a minerais críticos no Brasil. O Brasil tem de usar o desejo de americanos e de europeus de se beneficiar da nossa riqueza de terras-raras e minerais críticos para exigir que o beneficiamento seja feito aqui, para não sermos apenas exportadores de matéria-prima bruta. A China tem 90% da capacidade mundial de beneficiamento. A retomada de diálogo deve ficar para depois das eleições? Sim, não creio que haja condição técnica ou política antes disso. E Trump acredita piamente no uso de tarifas. No primeiro mandato, ele fez uma guerra contra a China, só que mais circunscrita. Agora, ele abriu guerra com todo mundo, com todos os seus clientes. Faz sentido ser o segundo país mais taxado do mundo? Sentido não faz. Essas relações de tarifas não são justificáveis pelo conteúdo dos processos; são meras desculpas. Há um conteúdo político, o estilo de Trump de usar tarifa para dobrar o outro lado. Trump usa essa arma mercantilista como se o mercado americano estivesse sendo invadido. Ele chegou a dizer no dia 2 de abril, o Dia da Libertação, como se referiu, que o resto do mundo estava estuprando os EUA, desovando tudo no mercado americano. Infelizmente, essa lógica é um fracasso na redução do déficit comercial. O custo de montar fábricas nos EUA é mais alto, então a política não terá o êxito que promete. No ano passado, apenas a China retaliou. Os outros países acabaram engolindo acordos desiguais. A margem do Brasil para retaliação é baixa. O que é possível oferecer em uma negociação? Existem itens da pauta brasileira que são negociáveis, como as tarifas sobre o etanol americano. O Brasil ainda tem tarifas e barreiras não tarifárias maiores que outros emergentes. Na negociação bilateral ainda há margem para oferta de redução de tarifas. O receio é os EUA quererem enfiar outras coisas na agenda, como acesso a minerais críticos.