Foi dias depois de Odin, o chefão da mitologia nórdica, ter criado o mundo, que a Ópera da Bastilha encenou, em 1998, "Tristão e Isolda", após décadas sem que a dupla dinâmica passasse por Paris. Críticos e jornais fizeram picadinho da encenação.
O Libération disse que a montagem era inepta e a música deveria "ser escutada de olhos fechados". Talvez seja por isso que gostei. Estava empoleirado na galeria e, embotado pelas brumas de Valhalla, pouco vi do palco. Sou o que Nietzsche disse de Wagner: um diletante.
"‘Tristão e Isolda’ é o Everest dos maestros", disse Roberto Minczuk, acrescentando que dois deles infartaram ao reger a ópera de Wagner, ora sob sua batuta no Theatro Municipal. Ele não só escapou do colapso cardíaco, como, proclama o diletante —agora sentado na sétima fileira— arrancou da orquestra um som superior ao da execução na Bastilha.
Há duas passagens no segundo ato em que a montagem paulistana se excede em excelência. Tristão e Isolda estão entregues aos prazeres do "coitus ininterruptus" e, fora de cena, Brangäne, a serva de madame, adverte: "cuidado!" Aflita pelo perigo de um flagra, mas com uma ponta de inveja do prazer dos patrões, a voz límpida —de Luisa Francesconi— augura: vai dar merda!








