Enquanto um poema com referência às guerras –históricas, campais, urbanas, diárias– ainda é projetado em primeiro plano, surge, impactante, o som a cappella do Coro Lírico Municipal —"Vivere e stare svegli", viver é estar desperto.

Por mais que se ouça em gravações, a experiência acústica do "ao vivo" é fundamental para se alcançar a beleza imanente à escrita coral de Luigi Nono, compositor de "Intolleranza 1960" —a data se refere ao ano da composição–, em cartaz no Theatro Municipal de São Paulo, com direção cênica de Nuno Ramos e Eduardo Climachauska.

Obviamente é uma beleza repleta de estranhezas. Engajado nas poéticas do pós-Segunda Guerra Mundial, Nono praticou a escrita serial, em que estruturas circulares organizam propriedades sonoras (com alturas, ritmos, entre outras) sem se referir aos acordes padrões da tonalidade clássica, reinantes na maioria dos sons musicais, populares ou eruditos, que nos rodeiam.

Durante o espetáculo –que o próprio Nono denominava "ação cênica", em vez de ópera – o protagonismo desafiador do coro é respeitosamente reforçado pela direção cênica ao por no palco seu regente, Hernán Sánchez Arteaga, totalmente alinhado à maestra Priscila Bomfim que, do fosso, comanda a orquestra e os solistas virtuosisticamente.