Quando "Intolleranza 1960" foi encenada pela primeira vez, na Bienal de Veneza de 1961, a obra de Luigi Nono foi interrompida por neofascistas. Não foi a única manifestação que o espetáculo sobre a Segunda Guerra Mundial despertou antes de se consagrar fora da Itália.
Apesar de aclamado nas décadas seguintes, o experimento do compositor italiano só pode ser realmente compreendido hoje, com a retomada de arsenais atômicos e da eleição de tiranos. É o que afirma o artista plástico Nuno Ramos, que, com Eduardo Climachauska, faz da "ação cênica", como Nono descrevia seus projetos, a primeira ópera de sua carreira.
Na trama, um imigrante abandona a mina em que desperdiça a própria vida para tentar voltar à cidade natal. No caminho, cruza com um protesto popular e acaba preso por engano. Ele é levado por policiais e vê sua queda ser traduzida em gritos que ecoam por toda a apresentação, inédita na América Latina.
Com estreia marcada para esta sexta, no Theatro Municipal de São Paulo, a montagem da vez é guiada pela sobreposição temporal. Logo no começo, um projetor inscreve palavras como "Gaza", "Pelourinho" e "Gás Mostarda" numa cortina translúcida. A projeção costura crises de diferentes épocas.







