Encenação no Theatro São Pedro, na Barra Funda, tem intérpretes entusiasmados e evita fazer de personagen protagonista apenas uma vítima de bullying etarista 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 'Don Pasquale', montagem no Theatro São Pedro. — Foto: Nadia Kouchi/Divulgação RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você Sob a regência de Ira Levin e direção de Livia Sabag, a montagem de 'Don Pasquale' no Theatro São Pedro destaca-se pelas atuações vibrantes do elenco e por uma leitura refrescante da comédia de Donizetti. Com direção de Livia Sabag e regência de Ira Levin, a comédia 'Don Pasquale' no Theatro São Pedro destaca-se pelas atuações inspiradas de Raquel Paulin e Santiago Villalba. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Um espetáculo de ópera não precisa salvar o mundo. Se simplesmente valer a noite e o ingresso, com uma apresentação refinada da música escrita e intérpretes infecciosamente entusiasmados, é bem possível que estejamos diante de tudo aquilo com que deveríamos nos importar. Isso é o que acontece anualmente no Theatro São Pedro, na Barra Funda paulista, toda vez que o regente Ira Levin sobe ao pódio para conduzir a dedicada orquestra residente. Tal como no “Falstaff” de Verdi, de 2025 (com encenação de Caetano Vilela), “Gianni Schicchi”, de 2024 (com Alexandre dal Farra) ou mesmo “A Raposinha Astuta”, com Andre Heller-Lopes, o maestro americano reuniu um cast não apenas adequado como vibrante e fez uma leitura refrescante da comédia “Don Pasquale”, de Gaetano Donizetti (1797-1848). Pérola do repertório belcantista, “Pasquale” precisa de bons cantores e comicidade. Não há elevadas morais, não há brechas para enormes discussões sobre a atualidade: estamos diante do velho enredo do solteirão idoso que deseja se casar, seguido por uma série de disfarces que tenderão, por fim, a tapeá-lo. A encenadora Livia Sabag tem exata noção do que é possível fazer com uma obra como essa: divertir-se. Num ambiente cultural em que é preciso reafirmar o valor espiritual da comédia, a estreia deste “Pasquale” deu testemunho deste credo e salvou muitas das vidas presentes. A começar pela escalação da soprano Raquel Paulin, indiscutível dama da comédia lírica. Depois de ter dado mostras dessa verve no Municipal de São Paulo, em papéis como a Frasquita na “Carmen” de Jorge Takla e mesmo na Zerlina do “Don Giovanni” malsucedido de Hugo Possolo, Paulin aproveitou as dimensões do São Pedro – mais gentis com seu volume – para encarnar uma Norina sanguínea e jovial, com uma apresentação deliciosa da ária “So anch’io la virtù magica”. Entregou ornamentos e floreios dentro de uma atuação muito atenta às exigências donizettianas. Não é de hoje que ouvimos cantores revelarem performances surpreendentes debaixo da batuta de Levin, mas o que se comprovaria apenas com Paulin toi ainda mais notável com Santiago Villaba. Barítono de carreira ascendente já percebido no Rio em “Elixir do Amor” e “Carmina Burana”, Villalba mostrou com seu doutor Malatesta uma voz generosa, com graves de manteiga e mel que merecerão atenção nos próximos anos. Ao lado do Pasquale irresistível e carismático de Rodrigo Esteves, Villalba formou uma dupla sofisticada e agradabilíssima em “Bella Siccome un Angelo”. O auge da récita se deu no quarteto “Ah, è rimasto là impietrato”, a que se juntou o tenor carioca Guilherme Moreira, no papel do hesitante Ernesto. Seu belo timbre lírico foi bem notado na cançoneta “Com’è Gentil”, ainda que em cena tenha parecido um pouco mais cerebral que seus colegas, talvez pelo nervosismo da estreia. Se Levin potencializa a partitura a partir dos cantores escolhidos e da direção refinada, dando à orquestra do São Pedro um belo tratamento, em andamentos que fazem a ação sempre andar para a frente, Lívia potencializa as atuações, intervindo apenas com um comentário muito gentil ao final personagem de Pasquale, salvando-o de ser apenas uma vítima de bullying etarista e dando aos presentes a oportunidade de discordar da última piada do libreto, hoje deslocada. Tamanho frescor contagia a plateia, que se vê diante da melhor noite da ópera paulistana em 2026.
Crítica: 'Don Pasquale', a melhor noite da ópera paulistana de 2026
Encenação no Theatro São Pedro, na Barra Funda, tem intérpretes entusiasmados e evita fazer de personagen protagonista apenas uma vítima de bullying etarista









