Atores e diretor contam como será o espetáculo, que após temporada em São Paulo ganha adaptações para dialogar com o público carioca 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Na temporada do Rio, José Loreto interpreta Max Overseas Navalha, em alternância com Tiago Barbosa — Foto: Divulgação/Adriano Dória RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 24/07/2026 - 19:36 Nova versão de "Ópera do Malandro" estreia no Rio com José Loreto e Tiago Barbosa José Loreto e Tiago Barbosa dividem o papel de Max Overseas Navalha na nova versão de "Ópera do Malandro" no Rio, dirigida por Jorge Farjalla. A peça, inspirada na obra de Chico Buarque, mistura teatro popular brasileiro e cultura carioca, com adaptações para o público local. A montagem, que conta com elenco diverso e cenografia repaginada, estará em cartaz no Teatro Multiplan de 6 a 30 de agosto. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Quando Jorge Farjalla tinha pouco mais de 1 ano de idade, a trilha de “Ópera do malandro” já fazia parte da rotina da casa onde cresceu, em Goiás. Fascinada por “Geni e o Zepelim”, sua mãe, Didi, comprou o disco do filme dirigido por Ruy Guerra logo após o lançamento e transformou as canções de Chico Buarque em companhia constante do filho. Décadas depois, foi ela quem plantou a semente da montagem que estreia no Teatro Multiplan, no VillageMall, em 6 de agosto, com elenco estrelado liderado por José Loreto no papel de Max Overseas Navalha, com alternância de Tiago Barbosa no mesmo personagem. — Minha mãe me pediu, lá em 2013: “Monta ‘Ópera do malandro’ para mim”. Na época eu disse que musical não era a minha praia. A vida deu voltas, e hoje considero esse um dos projetos mais importantes da minha carreira — revela Farjalla, diretor conhecido por espetáculos como “Irma Vap” e “Clara Nunes — O musical”. Escrita por Chico Buarque em 1978, a obra nasceu inspirada em “A ópera dos três vinténs”, de Bertolt Brecht, que por sua vez adaptava “A ópera do mendigo”, escrita por John Gay no século XVIII. Ao transportar essa linguagem para a Lapa dos anos 1940, Chico criou um retrato da malandragem carioca, do poder e da corrupção embalado por composições que ultrapassaram os palcos e se tornaram clássicos da música nacional. Veja cenas da 'Ópera do Malandro' 1 de 10 Max Overseas Navalha (José Loreto) e Teresinha (Carol Costa) se casam escondidos dos pais da noiva — Foto: Divulgação/Adriano Dória 2 de 10 O musical chega ao Rio com 27 atores em cena — Foto: Divulgação/Adriano Dória X de 10 Publicidade 10 fotos 3 de 10 A personagem Teresinha (Carol Costa) faz par romântico com Max — Foto: Divulgação/Adriano Dória 4 de 10 Max (José Loreto) e Teresinha (Carol Costa) em cena — Foto: Divulgação/Adriano Dória X de 10 Publicidade 5 de 10 Geni (Valéria Barcellos) ganhou mais destaque na nova versão — Foto: Divulgação/Adriano Dória 6 de 10 Teresinha e os pais — Foto: Divulgação/Adriano Dória X de 10 Publicidade 7 de 10 Delegado Chaves, o Tigrão, interpretado por Amaury Lorenzo — Foto: Divulgação/Adriano Dória 8 de 10 O Delegado Chaves (Amaury Lorenzo) e Max Overseas Navalha (José Loreto) — Foto: Divulgação/Adriano Dória X de 10 Publicidade 9 de 10 José Loreto diz que "Ópera do malandro" é o único musical que faria — Foto: Divulgação/Adriano Dória 10 de 10 "Ópera do malandro" tem figurinos e maquiagem que remetem à palhaçaria — Foto: Divulgação/Adriano Dória X de 10 Publicidade . Farjalla decidiu revisitar esse universo sem transformá-lo em uma peça de época. A montagem mistura referências do teatro popular brasileiro, da umbanda e da cultura de rua para aproximar a história do público contemporâneo: — Eu não queria um espetáculo museológico. Queria que o público sentisse que aquelas pessoas continuam existindo. A aproximação com o público também mora nos detalhes. Depois de uma temporada em São Paulo, com mais de 60 mil espectadores, o diretor promoveu mudanças específicas para a chegada ao Rio. Alguns gestos, expressões e marcações foram adaptados para dialogar com um público que tem intimidade com o CEP dos cenários exibidos no palco. — Temos um grande e corrido trabalho de adaptação. Profissionais de luz, som e cenografia chegam uma semana antes do elenco, entendem o novo espaço e pensam nas nuances. Para o Rio, vamos ter mudanças em alguns cenários e, um pouco, na personalidade da peça — diz Farjalla. Montagem de Jorge Farjalla possui fortes referências de palhaçaria e teatro popular, além da cultura afro-brasileira — Foto: Divulgação/Adriano Dória A principal diferença do espetáculo que será visto aqui é a alternância entre José Loreto, protagonista absoluto em São Paulo, e Tiago Barbosa no papel de Max Overseas Navalha, o malandro carioca dos anos 1940. Farjalla optou por um caminho pouco comum: em vez de criar um Max “oficial”, decidiu estimular os dois atores a encontrarem, cada um, a sua própria leitura do protagonista, sem reproduzir gestos, intenções ou marcações do colega. — Cada um tem a sua personalidade. Isso deixa o jogo cênico especial para todo o elenco. O teatro nasce e morre a cada dia — comenta o diretor. Hora de voltar para casa Natural do Rio de Janeiro, Tiago Barbosa retorna aos palcos fluminenses após três anos trabalhando fora do Brasil — Foto: Divulgação/Yei Phillip A proposta animou Tiago Barbosa, que recebeu o convite para participar do musical durante uma chamada telefônica pouco antes de subir ao palco para outra apresentação. Com participação em musicais da Broadway como “O Rei Leão”, carreira consolidada em Madri, onde vive há três anos, e de mudança prevista para a França, devido a um novo projeto em Paris, o ator carioca aceitou interromper temporariamente a jornada internacional para voltar aos palcos brasileiros. — Eu estava para me apresentar em um projeto da Dolce & Gabbana, no Sul da Espanha, quando me ligaram por vídeo. Estava vestido com uma camiseta preta com uma rosa vermelha na frente. O pessoal bateu o olho e disse: “Pronto, estamos te aguardando aqui” — conta ele, que ainda não sabia que rosas vermelhas eram um dos principais elementos da cenografia do espetáculo. O interesse do ator pela proposta também foi imeditato: durante a conversa com Farjalla e produtores por vídeo, alguém perguntou se o ator estava com um leve sotaque castelhano ou era impressão, e Tiago respondeu de bate-pronto: “É pisar no Rio que o moleque do Vidigal volta!”. Nascido na Baixada Fluminense e criado entre as ruas, becos e vielas de Duque de Caxias, São João de Meriti e Vidigal, na Zona Sul da capital, Tiago construiu um Max Overseas Navalha marcado pela vivência nas ruas do Rio. A ideia não era reproduzir o malandro da Lapa propriamente dito, mas aproximá-lo do charme, do improviso e da ambiguidade, de “um jeito safo de conhecer a vida”, definiu o ator. — Minha essência é carioca. Minha família, meus amigos e minha comunidade estão no Rio. A ideia é brindar essas pessoas com um Max que vem desse lugar — conta Tiago. Quando soube que estaria na mesma peça que José Loreto — o Zé —, ele conta que logo entrou em contato com o colega, e os dois iniciaram as primeiras conversas sobre o personagem. Mas um jamais tentou emular o trabalho do outro. Até porque, diz Tiago, isso nem seria possível: — Loreto é um menino solar. Chega sorrindo, brincando, contagiando. Eu sou mais reservado e quieto. Somos diferentes e consequentemente desenvolvemos personalidades diferentes para o Max. 'Único musical que eu faria' Max Overseas Navalha (José Loreto) e Teresinha (Carol Costa) fazem o par romântico da Ópera do Malandro — Foto: Divulgação/Adriano Dória Tiago também elogia a generosidade do colega, que está no ar na novela “Quem ama cuida”. Sempre que os horários de gravação permitiam, lembra, Loreto acompanhava os ensaios e compartilhava impressões sobre as cenas e marcações, sem interferir na liberdade criativa dele. Tiago conta que, por sua vez, também assistiu a ensaios do colega com admiração. Loreto diz que a harmonia do elenco é um dos trunfos do espetáculo. — A “Ópera” é o único musical que eu faria — revela. — Estou vivendo uma pós-graduação em Artes Cênicas! O elenco é muito unido, e as interações são muito valiosas. Temos um ambiente de aprendizado mútuo, e essa relação de troca é a grande potência da entrega artística. Catira e cores locais Max Overseas Navalha (José Loreto) contracena com Geni (Valéria Barcellos) — Foto: Divulgação/Adriano Dória A peça acompanha um submundo povoado por contraventores, prostitutas, cafetões, policiais e empresários na Lapa, o bairro mais boêmio do Rio, numa crítica ao poder e à corrupção cujo fio condutor é Max, um malandro sedutor, carismático e de moral duvidosa, que vive entre pequenos golpes, paixões e disputas por poder. Embora já cantasse, tocasse violão e compusesse desde a adolescência, José Loreto diz que este trabalho representa um marco na sua carreira. — A “Ópera” exige preparo físico, canto e dança... E o processo de dar vida ao Max funcionou como um aprofundamento muito radical para a minha formação. Estou amando essa experiência — revela. Segundo o ator, o desafio vai além da complexidade do protagonista. A cada sessão, a troca entre elenco, direção e plateia transforma a experiência em cena, fazendo com que nenhuma apresentação seja exatamente igual à anterior — uma característica que, para o diretor Jorge Farjalla, está na essência do teatro. Intérprete de Vitória Régia, dona de bordel e mãe do par romântico do malandro Max, Totia Meirelles diz que a alternância de atores no papel principal mantém o frescor do musical. — Uma das razões de a peça nunca se repetir é essa. Cada ator devolve uma energia diferente. A gente reage ao que recebe em cena; então, com cada um é de um jeito — diz ela, a partir da percepção dos ensaios. Vitória Régia (Totia Meireles) antagonista da Ópera do Malandro sob a visão de Jorge Farjalla — Foto: Divulgação/Adriano Dória Na temporada na cidade, a ambientação de “Ópera do malandro” também será diferente. Para o palco do Teatro Multiplan, cenários foram redimensionados; e a iluminação, redesenhada. Uma equipe técnica chegou ao Rio antes do elenco para reorganizar o espaço cênico. Valéria Barcellos, intérprete de Geni, diz que essas alterações funcionam de forma quase orgânica e conta que está ansiosa pela estreia na cidade. — Apresentar essa história justamente na cidade onde ela nasceu muda muita coisa. É como se a obra estivesse voltando para casa — afirma. A nova Geni Geni (Valéria Barcellos) ganha mais espaço dramatúrgico na visão de Jorge Farjalla — Foto: Divulgação/Adriano Dória Conhecida pelo público principalmente por causa da canção “Geni e o zepelim”, a personagem ganha novos contornos nesta montagem. Para o diretor, Geni sempre foi maior do que a música permitia enxergar e, por isso, na sua versão ela ganhou um espaço dramatúrgico mais amplo. Sua escolha acabou encontrando uma intérprete que já convivia com essa personagem ao longo da vida. Valéria conta que começou a estudar Geni depois de descobrir que Chico Buarque havia se inspirado na figura de Madame Satã para criar a personagem. Quando Farjalla anunciou em suas redes sociais que montaria “Ópera do malandro”, não esperou convite: — Mandei uma mensagem dizendo: “Essa personagem tem que ser minha ou vou entrar no teatro e quebrar tudo”. O curioso é que, um dia antes disso, a mãe do diretor já havia sugerido exatamente o nome dela para esse papel. Assim, não foi preciso tumulto; estava feito o casamento de Valéria e Geni. Mesmo depois de tantos anos de preparação, o primeiro sentimento que veio para a atriz não foi de alívio. — Eu fiquei com muito medo. Passei dez anos estudando, e quando veio a chance é que entendi o tamanho da responsabilidade — compartilha ela, primeira atriz trans a interpretar o papel em uma montagem de grande porte. A atriz Valéria Barcellos é a primeira artista trans a interpretar Geni em uma montagem de grande porte da Ópera do Malandro — Foto: Divulgação/Adriano Dória A Lapa que abrange o Brasil Além da maior importância conferida à história de Geni, a montagem tem outras particularidades. Em vez do tradicional sapateado inspirado na Broadway, por exemplo, Farjalla adotou a catira, manifestação popular brasileira marcada pelo ritmo dos pés e das palmas. Para Totia Meireles, essa foi uma descoberta. — Eu nunca tinha tido contato com a catira — diz Totia, bailarina profissional e cantora. — Ao longo da oficina que tivemos, entendemos como aqueles movimentos e corpos traziam mais chão, mais Brasil para o espetáculo. A estética também rompe com qualquer naturalismo. Os figurinos e a maquiagem bebem da palhaçaria, e a encenação assume referências do teatro popular e da cultura afro-brasileira. Logo na abertura, o público se vê frente a frente com Exu, abrindo simbolicamente os caminhos da narrativa. Farjalla incorporou ainda músicas que não faziam parte da versão original da peça. Canções como “Atrás da porta” e “Tatuagem”, do repertório mais conhecido de Chico Buarque, passaram a integrar a narrativa. Mudanças que mantêm vivo o texto escrito há quase meio século. Com patrocínio da Petrobras, a “Ópera do malandro” ficará em cartaz de 6 a 30 de agosto, de quinta-feira a domingo, no Teatro Multiplan, no VillageMall. Os ingressos, comprados na bilheteria ou via Sympla, custam entre R$ 25 (meia) e R$ 350.