'Esta é a minha vivência', diz a artista sobre a personagem, uma profissional do sexo trans, que se tornou uma das conhecidas do musical em cartaz agora no Rio 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 A atriz Valéria Barcellos em cena da peça 'Ópera do malandro', em que interpreta a personagem Geni — Foto: Adriano Dória/Divulgação RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você A atriz Valéria Barcellos brilha como a travesti Geni no musical "Ópera do malandro". Ela estuda a personagem há mais de uma década. Com carreira iniciada na juventude, a gaúcha se consolidou como multiartista. Ela superou preconceitos e uma violenta agressão no passado. Após se destacar na novela "Terra e paixão", Valéria concilia grandes musicais teatrais. Ela também prepara um novo show autoral no Rio. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Valéria Barcellos avisou ao diretor Jorge Farjalla que “quebraria tudo” caso não fosse escolhida para o papel de Geni na nova adaptação de “Ópera do malandro”. Há pouco mais de uma década, desde que se deu conta de que a canção “Geni e o zepelim” tratava da maldita e bendita vida de uma prostituta travesti, a atriz trans e cantora empreende uma pesquisa quase obsessiva sobre a música, esmiuçando a letra de Chico Buarque e correlacionando-a com outros textos (a composição se inspira no conto “Bola de sebo”, de Guy de Maupassant). Tudo isso porque, ao revirar as pedras no meio do caminho da personagem sofrida, a artista de 46 anos percebeu que também escavava a própria história. Natural da pequena Santo Ângelo, no interior do Rio Grande do Sul, Valéria lembra de ouvir, na infância, colegas de pele alva e olhos azuis, descendentes de imigrantes germânicos, conversarem em alemão para que ela não os entendesse. Filha de uma merendeira e um carteiro, encontrou na arte, meio sem querer — por insistência da regente da classe, que sempre via a criança cantarolando sozinha de frente para as paredes —, a “possibilidade de libertação e conhecimento de si mesma”. Aos 6 anos, ganhou um concurso de música no município. Virou estrela na escola. E não parou mais de cantar. Mas nem tudo foram aplausos para a gaúcha que sonhava ser professora só para experimentar “o poder de silenciar uma sala de aula”. Hoje, ela pede o oposto para a plateia que assiste à “Ópera do malandro”, em cartaz até o dia 30 no Teatro Multiplan, na Barra da Tijuca, no Rio, após temporada de sucesso em São Paulo. “Quero que vocês cantem comigo”, clama Geni, diante da plateia, antes da música emblemática. Está aí um dos ápices do espetáculo. — Acredito que o musical é condicionado para este momento. Esta peça é para a Geni — ressalta Farjalla. — Há um tom farsesco entre todos os personagens, e Geni talvez seja a que mais busque humanidade. Isso faz com que seja uma hecatombe. 'Ópera do malandro – O musical', na visão de Jorge Farjalla — Foto: Divulgação/Adriano Dória Na praça outra vez Inspirada na “Ópera dos três vinténs”, de Bertolt Brecht, e escrita em 1978, na ditadura militar, “Ópera do malandro” segue os passos de tipos marginalizados no Rio dos anos 1940. Pelas beiradas da trama protagonizada pelo contrabandista Max Overseas (interpretado por José Loreto, em alternância com Tiago Barbosa), Geni abocanha a cena. Aliás, sempre foi assim. Peça para alguém citar um dos personagens da trama — vertida para as telonas, em 1985, pelo diretor Ruy Guerra —, e quase sempre se ouvirá o nome da travesti, alvo constante, na história, da bosta, pedra e hipocrisia de uma cidade que só a acolhe quando convém (“Esta é a minha vivência”, diz Valéria). Fato é que a figura da ficção está em alta. Geni será tema, em breve, de um filme inspirado na canção. No longa-metragem inédito de Anna Muylaert — ainda sem data de estreia —, caberá à atriz trans Ayla Gabriela o papel principal. Há 48 anos, na montagem original da peça, em São Paulo, quem encarnou Geni foi Andréa de Mayo, militante travesti. A informação é realçada por Valéria. — Muita gente fala que sou a primeira atriz trans nesse papel, sem saber do trabalho da Andréa de Mayo. E a gente precisa lembrar dela. Acaba havendo um apagamento, e a peça, no fundo, quer celebrar a presença de todos esses corpos à margem — diz a atriz. Valéria Barcellos como Geni no musical 'A ópera do malandro' — Foto: Fotos de divulgação/Priscia Prade Valéria joga nas 11. Aprendeu “por imposição”, como diz, a fazer humor e drama — e a pintar, a fotografar, a “discotecar” e a realizar curadoria em artes visuais. O que mais? Nas últimas semanas, deixou temporariamente o elenco de “Meu filho é um musical” — superprodução sobre o humorista Paulo Gustavo, em cartaz no Teatro Renault, em São Paulo — para voltar a ensaiar, logo no dia seguinte, a “Ópera do malandro”. No fim deste mês, o movimento será inverso: findada a montagem buarquiana, retornará a “Meu filho...”. Depois, ingressará, então, no espetáculo “Titaníque”. No meio disso, ela mantém acesos projetos independentes. No dia 26, subirá ao palco do Solar de Botafogo, na Zona Sul carioca, para apresentar o novo show “Minha risada ainda vai tocar no rádio”, em que mescla “causos” pessoais a hits do cancioneiro nacional e internacional e composições autorais, alguns deles gravados no disco “Saraval”, de 2024 (que inclui uma versão de “Geni e o zepelim”). Será uma espécie de reedição das performances que ela fazia, há dez anos, na antiga casa noturna Galeria Café, em Ipanema. — Só sou uma “multiartista” porque fui atrás de aprender um monte de coisas para que conseguisse trabalhos e espaço — conta. — É ruim ter que ser assim. Mas precisava começar de algum jeito, né? Valéria se lançou profissionalmente aos 18 anos, numa “banda de baile”, como são chamados, no Rio Grande do Sul, os grupos que embalam festas de debutantes, comemorações em clubes, festejos de Ano Novo... Nesse período, ela deu largada ao gradual processo de transição de gênero. Passou a despertar olhares tortos (“Era estranha para aquela população: uma pessoa com a voz muito aguda vestida num terno”, recorda-se). Com o tempo, o canto alcançou outras plateias — a artista criou a persona Valéria Houston, cover de Whitney Houston —, “e aí as coisas mudaram da água para o vinho”, como relata: — Depois que consegui ser plenamente quem sou hoje, comecei a “cantar brincando”. Antes, tinha muita dificuldade. Era algo físico, como se me fechasse e não conseguisse cantar a plenos pulmões. Eu já era o que sou. Mas faltava um entendimento — diz. — Sabia que não seria fácil. Nunca é. Mas passei a cultivar até a possibilidade de sonhar. E aí fui me enfiando nos espaços, porque é assim que a vida funciona. Altos e baixos Ela não gosta de enfatizar os percalços. Prefere exaltar louros e láureas. Exemplos: o surpreendente êxito da personagem Luana Shine na novela da TV Globo “Terra e paixão” (2023), “um novo ponto de partida na carreira”, e a participação no recém-lançado álbum visual “Equilibrivm II”, de Anitta. Sim, sobram motivos para comemorar alegrias. Mas o mundo é cruel. Em 2015, enquanto passeava com um namorado na Rua da República, em Porto Alegre, onde mora, a atriz e cantora foi agredida com uma chave de fenda por um senhor que a chamava de “aberração” e vociferava que ela “tinha que morrer”. O crime, registrado em delegacia, nunca foi solucionado. Nas costas de Valéria, a cicatriz decorrente da violência está coberta agora por uma tatuagem: um desenho de uma rosa e um microfone. — Até esse episódio, tinha a visão de que meu trabalho era só cantar umas musiquinhas, e pronto. De repente, entendi que tinha a nobreza obrigatória de devolver algo maior para os outros — afirma. — E aí passei a tentar trazer, sempre, alguma coisa que conscientizasse. E, principalmente, que celebrasse o meu e tantos outros nomes que estão num cartaz de teatro, e não só em lápides.
Geni em 'Ópera do malandro', Valéria Barcellos vê reflexo da própria transexualidade em criação de Chico Buarque
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