O número 767 da rua Pio 11, na Lapa, é, hoje, o endereço de um sobrado de tijolos aparentes que abriga consultórios médicos e passa despercebido. Não se imagina que o lugar, onde antes havia uma casa térrea com um alpendre e um portal em forma de ogiva, foi palco de um banho de sangue.

Ali, há quase 50 anos, no dia 16 de dezembro de 1976, aconteceu um dos atos mais cruéis da ditadura em São Paulo. São considerados os últimos assassinatos cometidos pelo regime militar, posteriores aos de Vladimir Herzog e de Manoel Fiel Filho.

A chacina da Lapa, como ficou conhecida, foi cometida por militares do DOI-Codi do 2o Exército e por policiais do Dops, sob comando do tenente-coronel Rufino Ferreira Neves e com a presença do famigerado delegado Sérgio Paranhos Fleury. Teve como alvo membros do comitê central do PCdoB (Partido Comunista do Brasil), que acabaram mortos ou presos e torturados.

Os órgãos de repressão já vigiavam a casa sabendo que naqueles dias haveria uma reunião com parte da cúpula do partido, então clandestino, para fazer uma avaliação crítica sobre erros cometidos na condução da guerrilha do Araguaia e discutir uma nova orientação estratégica.

Nove integrantes do comitê participaram do encontro, embora houvesse mais dois militantes no local, o motorista Joaquim Celso de Lima e a encarregada de tarefas domésticas Maria Trindade. A reunião transcorreu nos dias 14 e 15 e, ao seu fim, já noite, os participantes foram deixando o endereço em duplas para entrar em um Corcel azul dirigido por Lima e poderem voltar aos seus esconderijos.