Em agosto de 2004, um dos episódios mais brutais da história recente de São Paulo expôs a vulnerabilidade extrema de quem vive nas ruas. Nos arredores da Praça da Sé, em meio ao frio típico do inverno paulistano, pessoas em situação de rua foram atacadas enquanto dormiam, resultando em sete mortes e diversos feridos graves. O crime, que ficou conhecido como Massacre da Sé, jamais teve seus autores identificados, tornando-se um símbolo da violência, da invisibilidade e da negligência que marcam a realidade dessa população. Mais de duas décadas depois, embora esse episódio permaneça como referência da barbárie, a exclusão social e a violência contra pessoas em situação de rua continuam presentes e se agravam em todo o País.

Em dezembro de 2024, Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua, da Universidade Federal de Minas Gerais, com base no Cadastro Único registrava 327.925 pessoas em situação de rua no Brasil. Um ano depois, eram 365.822 pessoas, quase 38 mil pessoas a mais, um crescimento de 11,6% em apenas doze meses. No mesmo período, a população brasileira cresceu cerca de 0,4% e o desemprego atingiu o menor nível da série histórica iniciada em 2012. A contradição é evidente: a melhora de alguns indicadores econômicos não impediu que dezenas de milhares de pessoas perdessem a moradia e passassem a viver nos espaços públicos.