Como a guerra no Irã está espalhando caos no mundo?Aumento nos preços dos combustíveis e energia por causa do fechamento do Estreito de Ormuz tem provocado protestos e tumultos em muitos países. Crédito: Carolina Marins (roteiro), Ariel Liborio (edição), Vitória Schmitz (produção) e Felipe Pedro (fotografia)Gerando resumoDonald Trump, Binyamin Netanyahu e Vladimir Putin são homens drasticamente diferentes, mas têm uma coisa importante em comum: cada um deles se considera a pessoa mais inteligente em qualquer lugar que entre. Infelizmente, porém, por terem feito a coisa mais estúpida que um líder pode fazer — cercar-se de bajuladores — todos se meteram em guerras sem saída, das quais só conseguirão se livrar hoje engolindo o orgulho.PUBLICIDADECuidado. Não há nada mais perigoso do que um líder imprudente diante de uma situação extremamente desfavorável: às vezes, seu instinto é insistir em uma estratégia fadada ao fracasso.Comecemos pelo primeiro-ministro israelense. O sinal de que Netanyahu perdeu o controle — e levou consigo a liderança da famosa agência de inteligência israelense, o Mossad — se reflete em duas decisões que ele tomou que foram simplesmente insanas: a primeira foi a ideia de que Israel poderia derrubar o regime de Teerã com um único ataque aéreo, e a segunda foi a de que poderia escolher o novo líder do Irã.PublicidadeComo presidente do Irã de 2005 a 2013, Ahmadinejad foi o político linha-dura mais proeminente do país Foto: Lynsey Addario/NYTAntes de explicar o quão insano isso foi, um breve contexto: desde que vi de perto como a milícia cristã libanesa, os falangistas, ajudou a enganar o Mossad em 1982, fazendo-os acreditar que, por meio de uma rápida invasão, Israel poderia instalar o líder anti-palestino dos falangistas, Bashir Gemayel, como presidente em Beirute, adotei a seguinte regra em relação ao aclamado serviço de inteligência israelense: se você quer que alguém seja assassinado em Beirute ou Teerã, ligue para o Mossad. Se você quer entender as tendências políticas e sociais em Beirute ou Teerã, não ligue para o Mossad. Porque a mesma razão pela qual ele é bom no primeiro caso também o torna ruim no segundo.O Mossad é muito eficiente em caçar e eliminar os inimigos de Israel, em grande parte porque é muito hábil em recrutar cidadãos descontentes no Líbano, Irã, Cisjordânia e em outros lugares do mundo árabe — ou seja, pessoas que odeiam seus regimes e estão dispostas a trabalhar com Israel para derrubá-los. O problema é que esses mesmos agentes, motivados por ressentimento ou dinheiro, tendem a exagerar a fragilidade de seus regimes e a facilidade com que os derrubaria.Eles querem que Israel faça o trabalho sujo por eles. O resultado é que um tolo como Trump, que não conhece nada de história, presume que, pelo fato de o Mossad ser bom em assassinar pessoas, também é bom em prever o que acontecerá na manhã seguinte à morte delas.PublicidadeLeia maisAhmadinejad, espião de Israel – e o erro que se repete no Irã desde 1953Por dentro da operação secreta de Israel para fazer Ahmadinejad trair o Irã e virar um espiãoObjetivo inicial dos EUA na guerra com o Irã era recolocar Mahmoud Ahmadinejad no poderIsso explica por que, após a reunião na Casa Branca em fevereiro, quando Netanyahu e o então diretor do Mossad, David Barnea, basicamente argumentaram que, se Israel e os Estados Unidos assassinassem os principais líderes do Irã, o governo cairia e pessoas boas assumiriam o poder, Trump não os expulsou da sala às gargalhadas. O presidente aparentemente presumiu que, como o Mossad tinha superpoderes de assassinato, também tinha superpoderes analíticos e, portanto, o Irã cairia em seu colo da mesma forma que a Venezuela caiu quando os EUA depuseram seu ditador, Nicolás Maduro.Como meus colegas Maggie Haberman e Jonathan Swan relataram em seu livro essencial, “Regime Change” (Mudança de Regime), o diretor da CIA, John Ratcliffe, usou uma palavra para descrever os cenários de mudança de regime de Netanyahu no Irã: “farsa”. Trump, confiante de que sabia mais, ignorou-o e a outros — e vem pagando o preço desde então.A prova ainda mais contundente de que tanto Netanyahu quanto sua agência de inteligência haviam se embriagado com o poder foi outra história incrível descoberta pelo Times: a de que o Mossad vinha preparando o ex-presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad para assumir o poder no Irã após a queda do governo do líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei. Como meus colegas relataram: “A decisão de Israel de construir um plano de mudança de regime em torno de Ahmadinejad é uma reviravolta extraordinária na saga das relações do país com o ex-presidente, conhecido por acelerar o programa nuclear iraniano, defender regularmente a destruição de Israel e negar o Holocausto.”PublicidadeOlá, Israel? Você sabe alguma coisa sobre a história moderna do Irã? Já ouviu falar de Mohammad Mossadegh? Ele foi o primeiro-ministro democraticamente eleito do Irã de 1951 a 1953, deposto por um golpe orquestrado pela CIA e pelo MI6 britânico após o Irã nacionalizar a Companhia Anglo-Iraniana de Petróleo. A fúria por esse golpe, que instalou o homem do Ocidente em Teerã, ainda arde no coração de muitos iranianos.Trump endurece o tom e ameaça bombardear pontes e centrais elétricas do IrãApós uma nova rodada de bombardeios americanos e relatos de explosões em diferentes regiões do Irã, o presidente americano Donald Trump ameaçou ampliar os alvos. Crédito: various sources / AFPA pura loucura de Israel ter pensado que poderia instalar Ahmadinejad — e que o corpo político iraniano não o rejeitaria da mesma forma que um corpo humano rejeita um transplante de órgão — é insana. Será que Netanyahu e o Mossad realmente pensaram que iranianos orgulhosos e nacionalistas, mesmo aqueles que odeiam os clérigos que os governam, diriam: “Oh, obrigado, Bibi, por instalar nosso próximo líder”? A vaidade e a prepotência de pensar que 7,2 milhões de judeus israelenses poderiam decidir quem governaria mais de 90 milhões de muçulmanos iranianos é espantosa.Trump e Netanyahu estão em boa companhia com Putin, que acreditou na própria ilusão ao presumir que todos os ucranianos estavam ansiosos para voltar a fazer parte da Mãe Rússia e que o regime democraticamente eleito em Kiev cairia facilmente.PublicidadeCONTiNUA APÓS PUBLICIDADE“O erro mais fundamental de Putin foi acreditar na sua própria narrativa de que ucranianos e russos eram ‘um só povo’ e que a independência da Ucrânia era meramente uma construção artificial ocidental”, observou Robbin Laird, analista militar, no ano passado. “Essa cegueira ideológica o levou a esperar que as forças russas fossem recebidas como libertadoras.”Em uma analogia perfeita ao que aconteceu no Irã, a inteligência russa parece ter se baseado demais em “fontes pró-Rússia que diziam a Moscou o que ela queria ouvir”, disse Laird, “em vez de fornecer informações precisas sobre o sentimento e as capacidades ucranianas”.Netanyahu, apesar de todas as suas vitórias táticas sobre o Hamas, o Hezbollah e Teerã, não converteu nenhuma delas em uma nova realidade estratégica para Israel. Isso exigiria que ele deixasse claro que suas operações militares em Gaza, no Líbano e no Irã visavam tornar a região segura para uma paz israelo-palestina.PublicidadeEm vez disso, o que o mundo inteiro vê é Netanyahu tentando tornar a região segura para uma anexação israelense de Gaza e da Cisjordânia, e estando disposto a descartar tudo o mais — a normalização com a Arábia Saudita, o apoio de muitos jovens americanos, o apoio do Partido Democrata, o apoio da Europa Ocidental e a independência do judiciário israelense — para conseguir isso.O primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, participa de uma sessão do Parlamento israelense (Knesset), em Jerusalém, em 16 de julho de 2026 Foto: ILIA YEFIMOVICH/AFPEnquanto isso, Trump enfraqueceu e isolou os Estados Unidos ao optar, de forma negligente, por invadir o Irã sem aliados, sem legitimidade internacional e sem um Plano B para eliminar a capacidade de Teerã de construir uma arma de destruição em massa. Em vez disso, Trump permitiu que o Irã descobrisse duas armas de destruição em massa incrivelmente baratas e eficazes: o controle do Estreito de Ormuz e o bombardeio dos aliados americanos no Golfo Pérsico quase sempre que Trump bombardeia o Irã.E Putin — em vez de se dedicar ao árduo trabalho de tornar a Rússia uma sociedade livre e aberta que realmente atraísse os ucranianos — transformou o que era uma frágil democracia russa em um estado policial completo, com uma petroeconomia vulnerável. Hoje, a Rússia está completamente alheia à revolução da inteligência artificial. É como se os carros tivessem acabado de ser inventados e Putin dissesse que preferia investir em mais cavalos — e em sua fantasia do século XIX de uma pátria russa unificada.O que temos hoje são três líderes tentando abrir caminho à força para um beco sem saída.Mas não nos esqueçamos dos líderes distorcidos, cínicos e incompetentes que governam o Irã desde 1979. Eles também estão em seu próprio beco sem saída. Em vez de empoderar sua população talentosa, os ditadores religiosos do Irã optaram por se entrincheirar no poder por 47 anos, assassinando opositores, impondo o islamismo puritano à força ao povo e desperdiçando bilhões de dólares tentando destruir Israel.Esperemos que um dia o seu povo os derrube por conta própria, talvez com a ajuda de uma potência surpreendente e não soberana. Os líderes do Irã exploraram o meio ambiente de forma irresponsável e represaram rios em excesso para beneficiar os aliados do regime, e agora estão totalmente vulneráveis a um inimigo muito mais poderoso do que Trump ou Netanyahu: a Mãe Natureza. O relatório mais alarmante sobre o futuro do Irã foi publicado há sete meses por analistas no prestigiado Boletim dos Cientistas Atômicos — e ele jamais mencionou armas nucleares. Mencionou apenas a grave crise hídrica do país, que pode ter paralisado mais instituições iranianas do que Israel e os Estados Unidos juntos.PublicidadeRubio: Permitir ao Irã controlar o estreito de Ormuz seria 'precedente perigoso'Em Manila, nas Filipinas, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, voltou a acusar o Irã de ameaçar a segurança marítima. Crédito: AKIO WANG / AFPTV FOR AGENCY POOL / AFP“Durante o verão de 2025, o Irã vivenciou uma onda de calor excepcional, com temperaturas diurnas em diversas regiões, incluindo Teerã, próximas a 50 ºC, o que forçou o fechamento temporário de repartições públicas e bancos”, disseram os analistas. “Nesse período, os principais reservatórios que abastecem a região de Teerã atingiram níveis recordes de baixa. Autoridades alertaram que a capital pode até ter que ser evacuada caso o abastecimento de água não se normalize.”Em resumo, todos esses conflitos acabarão em negociações, porque nenhum desses líderes consegue sustentar suas guerras estúpidas indefinidamente.
Opinião | Bibi achava que trocaria o aiatolá por Ahmadinejad e os iranianos iriam agradecer? Isso é loucura
Não há nada mais perigoso do que um líder imprudente diante de uma situação extremamente desfavorável: às vezes, seu instinto é insistir em uma estratégia fadada ao fracasso







