Enquanto o Ibovespa quase empatou com o CDI, o índice de referência para os investimentos em geral, no primeiro semestre, alguns fundos de ações dispararam até cinco vezes mais. O caminho? As ações americanas de inteligência artificial foram as maiores responsáveis pelo êxito dos gestores vencedores. Com o conflito entre os Estados Unidos e o Irã, esses papéis foram o porto-seguro do mundo. O Ibovespa avançou apenas 6,7% no primeiro semestre de 2026, mas fundos de ações chegaram a dar uma remuneração de até 36,4% aos seus investidores nesse intervalo. O principal indicador da bolsa brasileira viveu um começo de ano que parecia prometer um rali novamente, mas a guerra chegou e a bolsa atravessou quatro meses seguidos de sangria. O investidor estrangeiro, que desembolsava bilhões em bolsas emergentes à procura de diversificação além dos Estados Unidos, voltou para segurança das companhias americanas ligadas à tecnologia, após elas entregarem lucros maiores que o previsto. A procura por segurança foi necessária com as expectativas de cortes de juros no mundo ruindo, em meio à disparada da cotação do petróleo e da pressão sobre a inflação. No Brasil, a expectativa de juros altos por mais tempo afeta os balanços das companhias ligadas à economia brasileira e afasta os investidores locais da bolsa, que encontram refúgio na renda fixa. Tudo isso especialmente com a eleição batendo à porta, o que traz volatilidade maior para as ações e esquenta a polêmica do risco fiscal. Nesse ambiente, os fundos que investiram uma parcela grande da carteira em ações americanas de inteligência artificial se destacaram. Um fundo da Drýs Capital, a antiga Equitas, alcançou a impressionante remuneração de mais de 36% no primeiro semestre, enquanto um fundo do Opportunity atingiu 21% e um do Itaú, 19%. Melhores fundos de ações do 1º semestre Fundo de ações Retorno no ano, em % Retorno nos últimos 12 meses, em % Risco Patrimônio, em R$ milhões Drys Equitas Selection 36,40 57,85 22,24 164 Opportunity Logica II 20,84 40,81 16,13 128 Itau Asgard 19,10 50,10 24,29 305 Itaú Ações Dunamis 13,00 36,32 20,61 1.307 MAAM Ações 11,32 42,47 13,21 187 3G Radar 11,28 36,69 23,48 156 Inter Dividendos 10,24 24,35 16,99 121 Polo I Ações 10,16 17,75 11,94 352 BB Dividendos 8,64 21,20 16,91 582 Safra Multidividendos 8,59 24,27 16,56 125 Esses fundos lideraram o ranking dos mais rentáveis nos primeiros seis meses deste ano entre os acompanhados pelo Guia de Fundos do Valor. O levantamento foi realizado por Marcelo d'Agosto, consultor financeiro responsável pela ferramenta, com base em dados da plataforma Morningstar. Mais abaixo, dá para entender a metodologia do ranking tim-tim por tim-tim e por que nem todos os produtos do mercado aparecem nessa lista. Embora o ranking se refira à primeira metade deste ano, não significa necessariamente que esses são os melhores fundos para investir neste momento. Os especialistas aconselham analisar três anos, no mínimo, de remuneração e a qualidade da gestora antes de escolher onde investir. Esse ranking, portanto, é meramente informativo e não é uma indicação. Os fundos de ações são uma forma mais prática e diversificada de acessar a bolsa, delegando a escolha para gestores, porém com um custo mais alto. Eles são aconselhados para quem busca rendimento por prazo de no mínimo cinco anos. Por outro lado, a classe oferece riscos maiores em comparação aos investimentos de renda fixa, que estão bastante atrativos com elevados juros neste momento. Nesse ambiente, os investidores resgataram R$ 6,5 bilhões dos fundos de ações no primeiro semestre. A debandada foi menor do que a de R$ 43,6 bilhões nos primeiros seis meses de 2025, mas ainda assim a fuga não terminou. Contudo, o conselho para os cotistas é seguir diversificando a carteira independentemente do momento, pensando em prazos longos. As ações de inteligência artificial favoritas A Drýs Capital acertou comprando papéis de inteligência artificial — e especialmente um saltou e ajudou no desempenho do fundo: o da Micron, uma das principais fornecedoras globais de memória para data centers, um dos segmentos que mais crescem no mercado de tecnologia. A ação disparou 262% no primeiro semestre e era 20% da carteira do fundo, o limite máximo que um papel pode ter no portfólio da gestora. “Estudamos profundamente as teses de investimentos e só quando temos uma convicção grande podemos ter 20% em uma única ação. Em alguns momentos dos nossos mais de 20 anos de casa fizemos isso, e esse foi um desses momentos”, afirma Luis Amaral, chefe de investimentos da Drýs Capital. Desde 2024, a gestora identificou que as fabricantes de chips de memória seriam uma das principais beneficiadas pelo frenesi da inteligência artificial. É a memória, parte essencial dos data centers, que define o quão rápido os servidores processam as informações. Essa é uma excelente notícia para as fabricantes de chips de memória, que estão vivenciando um crescimento exponencial vendendo para as maiores companhias do mundo de tecnologia, como Amazon, Apple e Nvidia. A Micron em especial conta com três características que Amaral acha que são o segredo do sucesso: a companhia investe muito em inteligência artificial, é altamente especializada no que faz e poucos analistas se dedicam à entender o negócio. O valor de mercado da empresa bateu US$ 1 trilhão em maio, um salto de dez vezes em relação há um ano antes. “Os números que vêm da inteligência artificial são de uma grandeza muito maior. Os lucros crescem tão fortemente que, mesmo com as ações disparando, elas seguem negociando com desconto”, diz o gestor. “A grande incerteza ligada à tecnologia vai continuar, mas a inteligência artificial conta com o potencial de impactar de forma profunda vários setores da economia”, acrescenta. Além de Micron, o produto tem na carteira as ações de Amazon, Google, Microsoft, Nvidia e Sandisk. E além da história da inteligência artificial, também tem ações da bolsa brasileira na carteira, especialmente 3tentos, Orizon e Localiza. Contudo, Amaral enxerga muitos riscos de comprar ações brasileiras devido à possibilidade, na análise dele, de eleger um governo mais gastador do que deveria, que acabe contribuindo para a inflação subir. “As ações estão baratas, mas tem um condicionante ligado à política econômica. O Brasil está com problemas seríssimos de ordem fiscal, com juros em um nível insustentável, que dificultam o cenário para a bolsa”, afirma. Outro fundo favorecido pelas ações de inteligência artificial foi do Itaú, da família Asgard. Contudo, outras ações contribuíram para o desempenho no primeiro semestre também. Do exterior, especialmente ações de companhias de energia alternativa e de cobre. E localmente, principalmente papéis de companhias de aço, energia e do setor financeiro. Na análise de Luiz Ribeiro, gestor da família de fundos Itaú Asgard, apesar do conflito entre os Estados Unidos e o Irã pressionar os preços do petróleo, a inflação não explodiu e a alta de juros será limitada nos EUA. Nesse ambiente, as companhias de inteligência artificial devem seguir o seu movimento de avanço, que está apenas começando. Já em relação à bolsa brasileira, ele não é tão otimista assim. Na avaliação de Ribeiro, apesar de as ações estarem baratas, faltam gatilhos para o mercado se valorizar. “A preocupação com o fiscal é grande, independente de quem ganhe a eleição”, afirma. “Mas se vier um plano crível de ajuste fiscal, será o gatilho que está faltando para a bolsa andar. Ela tem mais chance de avançar do que de cair”, diz. Enquanto isso, o gestor gosta mais de seguir escapando do que chama de “armadilhas” da bolsa brasileira e fugir dos papéis das empresas de consumo, mais prejudicadas pela Selic alta por mais tempo. “Ainda gosto mais dos papéis mais defensivos até o cenário estar mais claro. A incerteza está grande ainda”, afirma. Um fundo da gestora Parcitas, o Maam, se destacou com ações de companhias de inteligência artificial, além de algumas ações brasileiras de commodities e da Petrobras. Atualmente, a carteira está mais investida no exterior do que no Brasil, em meio ao risco político e com os Estados Unidos atraindo o dinheiro dos investidores do mundo. As favoritas da casa são as ações de companhias de tecnologia como Google, Meta e TSMC, além dos papéis de seguradoras. Contudo, Dimitri Martins, gestor da Parcitas, tem ressalvas em relação aos papéis de inteligência artificial. “O mercado está muito nervoso com a questão da tecnologia e vamos observar esse nervosismo ainda por mais tempo. É bastante difícil escolher os nomes, por isso temos uma estratégia bem pulverizada”, afirma. Fundos long biased Poucos fundos de ações com a estratégia long biased deram ótimas remunerações nos primeiros seis meses deste ano, mas alguns chamaram a atenção. Os gestores desses fundos apostam não apenas na alta das ações, mas também na baixa em cenários determinados. É uma estratégia para minimizar os recuos em ambientes de baixa da bolsa. Um fundo da gestora Truxt de destacou alcançando mais de 28% rendimento na primeira metade do ano. Enquanto isso, um produto da Sul América Investimentos rendeu 10%; e um da AZ Quest, 8%. Melhores fundos log biased no 1º semestre Fundo long biased Retorno no ano, em % Retorno nos últimos 12 meses, em % Risco Patrimônio, em R$ milhões Truxt I Long Bias 28,43 45,81 25,57 62 Sul América Long Biased 10,04 27,34 11,47 13 AZ Quest Bayes LB Sistematic 8,13 22,33 10,67 14 Itaú FOF Long Bias 7,74 18,46 10,29 115 Icatu Vanguarda Igarate Long Biased 6,75 15,10 4,99 586 Absolute Pace Long Biased 5,66 16,17 13,38 1.640 JGP Equity 4,95 14,34 12,94 80 Norte Long Bias 4,40 26,53 11,92 91 Bahia AM Long Biased 4,10 19,99 13,63 47 Oceana Long Biased 3,27 11,28 8,77 335 Metodologia dos rankings Os fundos que integram as listas desta matéria estavam acessíveis em bancos e corretoras e têm, no mínimo, três anos de existência. Além disso, os fundos de ações contam com patrimônio maior que R$ 100 milhões. Os fundos são acompanhados pelo Guia de Fundos do Valor. A ferramenta agrupa as carteiras em categorias que possuem um significado prático para o investidor diversificar as suas aplicações. Os produtos são organizados em 16 categorias: renda fixa DI, prefixados renda fixa ativo, juro real, crédito privado com até 15 dias para o resgate, crédito privado a partir de 16 dias para resgate, debênture incentivada, multimercado baixa volatilidade, multimercado, long & short, long biased, ações índices, ações, investimento no exterior, ações no exterior, alocação multimercado e alocação ações. Alguns fundos podem não estar nos rankings porque não estavam em corretoras e bancos, não têm, no mínimo, três anos de existência ou R$ 100 milhões de patrimônio, não são acompanhados pelo Guia de Fundos do Valor ou integram outras categorias. Como escolher fundos de investimentos Fundos de ações continuam indicados para diversificar a carteira e ganhar mais que o Ibovespa, focando em no mínimo cinco anos. O conselho dos especialistas para escolher os produtos que conseguem entregar rendimentos altos e consistentes ao longo do tempo é analisar como o fundo se comportou durante diferentes momentos no passado e onde os profissionais trabalharam. Casas com mais idade e volume de recursos sob gestão, acima de alguns bilhões, contam com mais confiança do mercado. Além disso, é um bom indicativo se a gestora possui um grande número de pessoas e se elas trabalham lá desde o começo. Alguns produtos correm mais riscos e, por isso, tendem a ser mais voláteis, mas às vezes as gestoras têm fundos parecidos que correm menos riscos e tendem a ser menos voláteis. É aconselhado escolher os que mais combinam com o perfil e objetivos do investidor.