Marcelly não foi a primeira a ter esse nome, mas foi a primeira a conquistá-lo.

Em 2011, obteve na Justiça o direito de alterar o título no registro civil sem passar por cirurgia de redesignação sexual, decisão inédita no país. Muito antes da sentença, porém, já tinha seu lugar na história do movimento LGBTQIA+. Participara de momentos decisivos da luta por direitos da comunidade, ajudara a formular políticas públicas e se tornara referência para quem buscava acolhimento.

Marcelly Malta Lisboa nasceu em 1951, em Mato Leitão, no Vale do Rio Pardo (RS). Ainda adolescente, mudou-se para Porto Alegre. Sonhava trabalhar na área da saúde, inspirada por uma tia. Conseguiu realizar o desejo com o apoio de freiras franciscanas, que a ajudaram a concluir um curso de auxiliar de enfermagem.

Exerceu a profissão. Paralelamente, trabalhou como prostituta nas ruas e boates da capital gaúcha. Durante a ditadura militar, foi presa sob acusações de vadiagem, dispositivo frequentemente usado para perseguir travestis. Ao relembrar aqueles anos, voltava quase sempre à violência que sofreu nas celas.

Antes mesmo de se tornar uma das principais vozes do movimento trans, participou da Coligay, primeira torcida organizada LGBT+ do Brasil, criada para apoiar o Grêmio.