A crise do tarifaço não é desculpa para mais oportunismo do governo e do Congresso em ano eleitoral 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O Porto de Santos, em São Paulo — Foto: Edilson Dantas / O Globo/ 13/04/2026 Exige cautela a preparação de socorro para as empresas que serão afetadas a partir da quarta-feira pelo tarifaço de 25% imposto pelo presidente americano Donald Trump. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio estima que a nova taxação afetará 18% das exportações para os Estados Unidos, fatia correspondente a US$ 7,4 bilhões. A mudança não deverá ter reflexo macroeconômico significativo, mas é fato que setores fora da lista de exceções, como a indústria de calçados e mobiliário, sofrerão. Embora exportadores e trabalhadores em apuros devam receber algum tipo de ajuda, é preciso vigilância contra o oportunismo político. Em ano eleitoral, Executivo e Legislativo não têm desperdiçado chance de acumular “bondades”. A cada novo agrado para um determinado setor, a dívida pública, já gigante, aumenta mais. Os primeiros sinais em Brasília têm sido preocupantes. No Congresso, há comparações absurdas entre o novo tarifaço e a pandemia do coronavírus. No Ministério da Fazenda, há pedido do BNDES por liberação de mais R$ 7,2 bilhões para reforçar linhas de crédito destinadas a exportadores. Sem mudança de rota, o país repetirá os erros cometidos no ano passado. Após o primeiro tarifaço, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou pacote de crédito do BNDES de R$ 30 bilhões. Batizado de Brasil Soberano, somou desembolsos de R$ 10,8 bilhões em menos de cinco meses. Em 2025, ficou atrás somente do Plano Safra. Quando confrontada com a liberação desenfreada de crédito, a equipe econômica costuma argumentar que os recursos não podem ser classificados como gasto, pois voltarão aos cofres quando as dívidas forem quitadas. Na prática, as linhas subsidiadas representam perda para o Tesouro, porque ele toma emprestado a uma taxa maior e, raras vezes, vê o retorno do dinheiro. Foi o que aconteceu depois do primeiro tarifaço. As “sobras” do Soberano de 2025 foram usadas para lançar o Soberano 2 no início deste ano. Com uma sobretaxa de 25%, será difícil para a maioria dos exportadores vender seus produtos nos Estados Unidos. A saída é a diversificação, algo já em curso. Em 2025, o Brasil registrou recorde histórico nas exportações para 42 países, incluindo Canadá, Índia, Paquistão e Noruega. A façanha foi, em parte, obra de quem estava saindo do mercado americano. Portanto uma das melhores ajudas que o governo brasileiro tem a dar é intensificar negociações de acordos de livre-comércio entre o Mercosul e outros blocos ou países. A Casa Branca pode fazer recuos e dar concessões pontuais, mas não abandonará a política protecionista tão cedo. Nos Estados Unidos, o comércio se transformou em munição para tentar fortalecer a indústria local e fazer frente à China. Para potências médias como o Brasil, resta perseguir novas parcerias e aprofundar as existentes. Teimar em prosseguir com a ideia de que governar é, acima de tudo, gastar e dar crédito será receita para o fracasso. O governo tem seguido essa regra quando não há motivo algum, a não ser o eleitoreiro. Quando aparece uma justificativa, o estrago costuma ser maior. O Congresso tampouco tem demonstrado responsabilidade fiscal. Executivo e Legislativo devem lembrar que haverá um país a ser governado depois de outubro.