O governo se prepara para colocar em marcha o reforço ao Brasil Soberano, programa de socorro a empresas afetadas pelo tarifaço de Donald Trump, que anunciou a imposição de sobretaxa de 25% para produtos brasileiros a partir da próxima quarta-feira. Em outra frente da resposta à Casa Branca, o Brasil avalia os riscos de usar a Lei de Reciprocidade e pondera as chances de uma resposta ainda mais dura dos americanos. Para calibrar o tamanho do esforço que será feito nas linhas de crédito do programa de socorro, o governo vai ouvir os setores afetados. As prioridades, considerando análise do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), são mobiliário, calçados, madeiras e máquinas e equipamentos. O BNDES solicitou na última terça-feira que o Ministério da Fazenda faça a liberação da parcela remanescente dos recursos previstos para a segunda etapa do programa, lançada este ano. O pedido é de R$ 7,25 bilhões e faz parte dos R$ 15 bilhões do Fundo de Garantia à Exportação (FGE), administrado pelo Tesouro Nacional, destinados ao programa. O orçamento total do Brasil Soberano é de R$ 21 bilhões, dos quais R$ 15 bilhões são provenientes do FGE e outros R$ 6 bilhões são aportados pelo próprio BNDES. O pedido do BNDES não está relacionado a uma injeção adicional de recursos ao programa. Trata-se de uma medida operacional para dar continuidade às operações de financiamento que estão em análise antes mesmo de o governo americano anunciar, nesta semana, o novo tarifaço. Setor de calçados é um dos impactados pelo tarifaço de Trump — Foto: Reprodução/Abicalçados Segundo o BNDES, os recursos que serão usados para atender projetos já protocolados no programa somam R$ 18,2 bilhões. Deste total, R$ 8,3 bilhões já foram aprovados. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, já pediu ao presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, o detalhamento das operações fechadas e da demanda que não foi atendida em cada linha de crédito na fase 2 do plano. Há diferentes modalidades, que vão desde o capital de giro e o capital de giro para exportação até bens de capital (máquinas e equipamentos) e investimento. Recalcular a rota A ideia é ter um panorama do que tem sido mais demandado ou de eventuais gargalos na contratação, para também calibrar agora. Já se sabe, porém, que o novo limite de crédito será menor do que as fases anteriores do plano, de R$ 30 bilhões em 2025 e de R$ 15 bilhões este ano. A estimativa considera o volume de contratações até aqui. O acesso ao crédito no Brasil Soberano depende da estruturação e da aprovação de projetos. Inicialmente, o cálculo da equipe econômica é que, se os pedidos já somam R$ 18 bilhões, e o novo tarifaço conta com lista maior de exceções, provavelmente uma parte relevante dos interessados já foi atendida, o que significaria a necessidade de um adicional menor de recursos. Na quinta-feira, durante a entrevista com um pelotão de sete nomes do alto escalão para refutar os argumentos da Casa Branca ao tarifaço, Durigan já havia enfatizado que o socorro seria mais pontual e focado e que os compromissos fiscais assumidos pelo governo seriam mantidos mesmo diante da nova ameaça tarifária. Enquanto o governo ainda delineia a estratégia para enfrentar o tarifaço, as empresas que exportam para os EUA começam a recalcular a rota. É o caso da Savelli, fabricante de calçados com sede em Franca, em São Paulo, que produz cerca de 700 pares por dia e emprega 150 pessoas. Segundo Bruna Pine Martins Machado de Moraes, gerente de Exportação da Savelli, há dez anos, o mercado americano respondia por 60% da produção da empresa, fatia que perdeu força ao longo do tempo. Hoje, o país representa 23% das exportações da companhia. Ao todo, cerca de 80% da produção da Savelli é destinada ao mercado externo, com vendas para aproximadamente 50 países. Ainda assim, o mercado americano é considerado estratégico para a empresa. “Dependendo do desfecho, estamos analisando até uma redução da produção da nossa unidade fabril” - Bruna Pine Martins Machado de Moraes, gerente de Exportações da fabricante de calçados Savelli — O mercado americano costuma fazer uma programação dos seus pedidos. Isso ajuda muito a indústria, porque conseguimos planejar os investimentos necessários. No ano passado, quando houve o primeiro tarifaço, tivemos muitos pedidos cancelados, e isso nos levou a buscar novos clientes e mercados. De lá para cá, fechamos negócios, e muitos desses pedidos estão em produção. Agora, com esse novo tarifaço, estamos aguardando para ver o que vai acontecer — diz Bruna. Capital de giro Segundo a executiva, a empresa, que fornecia para grupos americanos como Johnston & Murphy e vende para a Dillard’s, já começou a receber pedidos de descontos para as próximas encomendas de outros clientes. Ainda assim, a Savelli prefere aguardar uma definição sobre a política comercial dos EUA, diante da possibilidade de setores como o de calçados e o de máquinas integrarem uma futura lista de exceções às tarifas. “Vamos ter uma demanda maior por linhas de crédito em razão do tarifaço” - Fernando Pimentel, presidente da Abit — Dependendo do desfecho, estamos analisando até uma redução da produção da nossa unidade fabril — diz a executiva, que, por ora, não pretende reduzir o quadro de funcionários em razão da dificuldade de contratação e qualificação da mão de obra. — Se a gente demite, depois é muito difícil recontratar e formar novos profissionais. Por isso, estamos aguardando as definições, porque o setor ainda não sabe exatamente qual será o impacto das medidas. Um fator adicional agrava o impacto: o comportamento da moeda americana. Com o dólar mais alto, a empresa conseguia conceder descontos a alguns clientes. Nas palavras de Bruna, o quadro agora é de “tempestade perfeita”, com dólar em queda e nova tarifação. A empresa já recorreu ao Brasil Soberano no último ano para reforçar o caixa, mas vê a medida como um alívio temporário, já que, posteriormente, é necessário pagar os juros do empréstimo. No setor têxtil, o quadro é de apreensão. Os mais sensíveis são os segmentos de moda praia, com 35% de suas exportações destinadas aos EUA, seguido de meias (33%) e vestidos e saias (27%). No geral, os EUA representam 7% de todas as exportações do setor têxtil. Segundo Fernando Pimentel, presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), as negociações são uma espécie de “jogo de paciência” que exige “cabeça fria”, mas sem subserviência. Ele conta que importadores e a própria entidade americana equivalente do setor de moda já haviam se manifestado a favor dos produtos de vestuário brasileiros, mas não adiantou. — Vamos ter de trabalhar muito nas negociações empresariais e governamentais. Há empresas que têm grande dependência do mercado americano na sua receita total. Isso vai exigir uma dose de negociação com clientes muito grandes — afirmou. Um dos focos do setor é obter capital de giro para suportar o impacto do início do tarifaço, diz Pimentel: — Vamos ter uma demanda maior por linhas de crédito em razão do tarifaço. Vai ser quase inevitável. O que estamos discutindo com o governo é que precisamos dessa linha de giro, e é óbvio que não seremos os únicos a pedir.