Para quem começa a ler o primeiro romance de Albertine Sarrazin, além de uma abrupta e inesperada incursão no submundo francês, o que mais chama atenção é o quanto o corpo —os afetos, as sensações, o erotismo— salta aos olhos, roça a pele e faz das tripas o coração das palavras.

Ficamos assim de pronto entre esse amálgama de experiências carnais e uma narradora que busca dar consistência literária para uma vida de golpes, furtos e prostituição —uma narradora entre os macetes e gírias do meio em que se encontra e uma cultura erudita que a seduz. Entre o desejo de ser reconhecida e o gozo de estar à margem, entre a busca de um lugar de acolhimento e o constante estado de fuga.

Afinal, trata-se de um romance em primeira pessoa que conta a fratura entre esses mundos e, materialmente, se desdobra na fratura do "astrágalo" —um osso da parte superior do pé— durante a escapada de um presídio. Disso se segue toda uma trama de personagens e lugares que escondem, usurpam ou acolhem a nossa narradora.

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