No romance "O Piano e a Orquestra", de Carlos Heitor Cony, o narrador está obcecado por uma vaca. Uma vaca que fala em perfeito francês: "À votre service".
Ele só a encontrara uma vez, empacada no meio da estrada, e gostaria de revê-la e mergulhar de novo na doce alucinação. Só uma pessoa no mundo poderia ajudá-lo: o repórter policial Luarlindo, cuja fama era saber de tudo e ser capaz de descobrir qualquer coisa. Em troca de alguns chopes, o jornalista dá o serviço. A vaca se escondia no bairro do Lins de Vasconcelos, na zona norte do Rio de Janeiro.
Revelar o mocó da vaca falante foi moleza para Luarlindo. Veterano do Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, sempre furando a concorrência, em seu currículo constam, além de três prêmios Esso, coberturas mais difíceis e traumáticas: a busca pela corpo da socialite Dana de Teffé, o incêndio do Gran Circus Norte-Americano em Niterói, a morte do detetive Milton Le Cocq, a caçada ao bandido Cara de Cavalo, as fugas cinematográficas do assaltante Lúcio Flávio, o surgimento dos esquadrões da morte, o sequestro do menino Carlinhos, o atentado a bomba no Riocentro, a captura do mafioso Tommaso Buscetta no Brasil.
Luarlindo Ernesto, que inspirou o personagem de Cony, acaba de ganhar uma biografia. Em "O Último Repórter dos Anos de Chumbo", Elenilce Bottari narra com rigor histórico os episódios da trajetória de Luar, como é conhecido, mas de maneira descontraída, como se fosse uma conversa de bar, com pitacos do próprio biografado: "Falei com o Buscetta, mas a única coisa que o italiano me disse foi: ‘A pronúncia do meu nome não é busqueta. É buceta mesmo’".














