O advogado detalha o caminho para famílias empresárias que querem preservar o patrimônio sem depender de um sucessor no comando do negócio. Rodrigo Gonçalves Pimentel — Foto: Divulgação O Brasil se aproxima da maior transferência de patrimônio de sua história. Estudo do banco suíço UBS coloca o país como o segundo do mundo em fortuna a ser herdada nos próximos anos, com US$ 9 trilhões previstos para mudar de mãos. Boa parte desse valor está dentro de empresas familiares, que representam cerca de 90% dos negócios brasileiros e respondem por mais de 60% do PIB. O problema é que a riqueza construída nessas empresas raramente sobrevive à travessia entre gerações, e a causa quase nunca é o mercado. Rodrigo Gonçalves Pimentel, advogado com atuação em sucessão patrimonial e estruturação societária, identifica a origem do risco dentro da própria família. "O maior risco da sua empresa não é o concorrente. Não é o banco. Não é o governo. É o herdeiro não querer ela", afirma. Na avaliação do advogado, o mercado aprendeu a precificar concorrência, juros e regulação, mas a maioria dos fundadores ainda não precificou o cenário mais provável de todos, o de filhos que construíram carreiras na medicina, nas artes ou no exterior, e não pretendem assumir o comando. A pergunta errada trava a sucessão Diante desse cenário, a reação mais comum dos fundadores é binária: vender a empresa ou insistir em preparar um herdeiro que não quer o cargo. Rodrigo Gonçalves Pimentel trabalha com uma terceira via, que remove a premissa do dilema. Para ele, a continuidade do negócio não precisa depender de os sucessores operarem a empresa, o que exige separar dois papéis que as famílias costumam confundir: o de quem trabalha para o patrimônio e o de quem recebe o que o patrimônio produz. Essa distinção entre gestor e beneficiário reorganiza a decisão inteira. O herdeiro sem vocação para o negócio deixa de ser um problema a corrigir e passa a ocupar o papel que lhe cabe, o de sócio que fiscaliza resultados e recebe dividendos, enquanto a execução fica com quem comprova competência, familiar ou não. O advogado resume a régua em uma frase que aplica às estruturas que desenha: a caneta do dia a dia pertence a quem entrega resultado. Do parque fabril ao contrato de renda Quando nenhum herdeiro deseja a operação, a estrutura defendida por Rodrigo Gonçalves Pimentel vai além da governança e alcança a natureza dos próprios ativos. A estratégia, conhecida no mercado como capital recycling, converte negócios operacionais de alta complexidade em fontes de renda passiva, sem que a família abra mão da propriedade. A indústria que os filhos não querem tocar pode virar galpão logístico alugado a operadores do setor. A rede de lojas pode migrar para franquia ou licenciamento de marca. A fazenda pode ser arrendada em contratos longos com travas de preço, que protegem a receita da inflação. A lógica que sustenta essas conversões é pragmática. "É melhor ser beneficiário de 10% de algo que rende do que de 100% de algo que dá prejuízo", pontua o advogado. O patrimônio segue com a família, o trabalho passa a ser de terceiros, e os herdeiros recebem a renda sem carregar o risco trabalhista, ambiental e comercial da operação direta, riscos que, na sucessão despreparada, costumam corroer o valor antes mesmo da partilha. O destino da liquidez Convertidos os ativos, a liquidez precisa de um veículo, e é nesse ponto que Rodrigo Gonçalves Pimentel estrutura o fundo familiar, em geral um Fundo de Investimento em Participações. Imóveis de renda, royalties, recebíveis e carteiras de investimento são integralizados no fundo, cuja gestão profissional aloca capital e cobra resultados. A sucessão, que no modelo tradicional exige inventário, avaliação de bens e partilha litigiosa, torna-se uma troca de beneficiários das cotas, com possibilidade de transmissão em vida sob cláusulas de usufruto. O advogado faz uma ressalva técnica que considera decisiva para o desenho funcionar. Fundo aloca, não opera. A estrutura serve à parcela do patrimônio já convertida em ativos passivos, e não à gestão de fábricas ou lojas, erro que compromete tanto o veículo quanto o negócio. Governança corporativa e fundo familiar, nessa arquitetura, cumprem papéis complementares, a primeira blinda a operação, o segundo blinda a liquidez. Estrutura ou inventário, a escolha que o fundador ainda controla Os números do país dão a dimensão do que está em jogo. Segundo levantamento do Banco Mundial, apenas 30% das empresas familiares sobrevivem até a terceira geração, e o inventário judicial, caminho de quem não estrutura a sucessão em vida, pode consumir até 30% do valor do espólio entre custos e litígios, além de paralisar decisões da empresa enquanto durar. Para Rodrigo Gonçalves Pimentel, a comparação entre os dois caminhos deixou de ser jurídica e passou a ser econômica, de um lado, regras de transição desenhadas pelo próprio fundador, do outro, um juiz decidindo o destino do que ele construiu. É essa a decisão que o advogado apresenta às famílias empresárias diante da transferência de riqueza que se aproxima. O fundador pode ser o último dono de uma empresa que se encerra com ele, ou o primeiro gestor de uma estrutura desenhada para atravessar gerações. A diferença entre os dois destinos não está na vocação dos herdeiros, está na arquitetura montada enquanto a caneta ainda é dele.