O advogado, com atuação em planejamento sucessório, mostra que a recusa dos herdeiros não é fracasso e que existe caminho para preservar o patrimônio sem obrigar ninguém a assumir o balcão. 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Rodrigo Gonçalves Pimentel — Foto: Divulgação O pai construiu a empresa ao longo de quarenta anos. A filha virou médica, o filho vive fora do país, e nenhum dos dois pretende assumir o negócio que sustentou a família a vida inteira. A cena se repete em milhares de lares brasileiros e quase sempre vem acompanhada do mesmo sentimento: uma culpa silenciosa que ninguém verbaliza. O fundador sente que criou filhos desinteressados pelo que construiu. Os filhos sentem que decepcionam o pai por seguirem a própria vocação. E a empresa, enquanto isso, fica sem futuro definido. Rodrigo Gonçalves Pimentel, advogado com atuação em planejamento sucessório e proteção patrimonial, costuma começar essas conversas desmontando a culpa. "O fato de os herdeiros não quererem assumir o comando não é um sinal de fracasso familiar, mas um chamado para uma nova forma de gestão", afirma. Para o advogado, ninguém falhou quando os filhos escolheram a medicina, as artes ou a vida no exterior. A falha, quando existe, está em outro lugar, na ausência de uma estrutura que permita a esses filhos herdarem o resultado do patrimônio sem precisarem trabalhar nele. Legado não é obrigação A raiz do problema, na leitura de Rodrigo Gonçalves Pimentel, está na forma como as famílias entendem a palavra legado. Na tradição brasileira, deixar um legado significa passar o bastão, e passar o bastão significa colocar um filho na cadeira do pai. O advogado propõe outra definição. Legado não é obrigar os herdeiros a sentarem na cadeira do fundador, é garantir que essa cadeira continue gerando riqueza para a família, independentemente de quem esteja sentado nela. Essa mudança de entendimento tem consequência prática imediata: ela separa o direito de receber do dever de trabalhar. O filho médico pode continuar médico e, ainda assim, ser sócio da empresa da família, com assento no conselho, poder de voto nas grandes decisões e participação nos lucros. A gestão do dia a dia fica com um profissional contratado e cobrado por metas, enquanto a família mantém o controle do que importa, a propriedade e a direção estratégica do negócio. O perigo mora no orgulho, não na recusa Contra a intuição de muitos fundadores, o advogado avalia que o herdeiro que recusa o cargo é o cenário mais administrável. O risco verdadeiro tem outro perfil, o do filho que não tem vocação nem preparo, mas assume o comando por orgulho ou por pressão da família. Rodrigo Gonçalves Pimentel dá a esse cenário o nome que ele merece: entregar a chave para quem não tem condição de gerir não é um presente, é uma sentença. Nas contas do advogado, um patrimônio erguido em trinta anos pode ser desfeito em cinco por uma gestão despreparada. É por isso que a estrutura recomendada trata a competência com a mesma frieza aplicada a qualquer contratação. Se um herdeiro quiser de fato comandar, o caminho existe, mas passa por avaliação idêntica à de um executivo de mercado, com metas claras e prazos definidos. O critério protege a empresa e, na visão do advogado, protege principalmente o próprio herdeiro, blindado do risco de destruir, por falta de preparo, a fonte da renda que o sustenta. O custo de deixar para depois Adiar essa organização tem preço, e ele é conhecido. Sem estrutura definida em vida, o destino do patrimônio é decidido no inventário, processo que no Brasil combina lentidão, custo e desgaste familiar. Entre imposto de transmissão, que varia conforme o estado e pode chegar a 8% do valor patrimonial, custas judiciais e honorários, a conta consome uma fatia relevante da herança, e as disputas entre herdeiros fazem o resto. Os números mostram o tamanho do despreparo: em 2022, foram registrados apenas 33,5 mil testamentos para mais de 1,36 milhão de óbitos no país, menos de 2,5% das sucessões com alguma instrução formal. Rodrigo Gonçalves Pimentel observa que, nesses processos, o que se perde vai além do dinheiro. Irmãos que cresceram juntos deixam de se falar por causa de um imóvel indiviso, de uma conta não explicada, de uma empresa sem comando definido. O planejamento feito em vida, compara o advogado, funciona como uma mediação antecipada; o próprio fundador define as regras enquanto pode conversar com todos, em vez de deixar a discussão para o pior momento possível, o luto. A conversa que precisa sair do silêncio O primeiro passo, para o advogado, não é jurídico, é familiar. A conversa que os fundadores adiam por medo de conflito é justamente a que evita o conflito: ouvir dos filhos o que cada um espera, quem tem interesse pela gestão, quem prefere apenas a condição de sócio, e desenhar a estrutura a partir dessas respostas, não contra elas. Feita a tempo, essa organização devolve a cada um o seu lugar sem cobranças cruzadas. O fundador ganha a tranquilidade de saber que o patrimônio está protegido de disputas. Os filhos ganham a liberdade de seguir as próprias vidas sem o peso de uma dívida moral. E a empresa ganha o que raramente tem em famílias sem planejamento: um futuro que não depende de ninguém abrir mão de quem é.
Rodrigo Gonçalves Pimentel responde: o que fazer quando os filhos não querem a empresa da família?
O advogado, com atuação em planejamento sucessório, mostra que a recusa dos herdeiros não é fracasso e que existe caminho para preservar o patrimônio sem obrigar ninguém a assumir o balcão.










