Poucos caminhos, na música brasileira, são tão estranhos quanto o de Alaíde Costa. Nos anos 1960, da bossa nova e outras bossas, emergiu como uma das maiores cantoras do país. Depois vieram a música de protesto, o rock, o tropicalismo —ondas com que não se identificava. Depois foi, aos poucos, desaparecendo.

Não sumiu de todo. Era como se fosse lentamente se apagando da memória, seja de quem ouvia, seja de quem compunha. Alaíde saiu de moda, vamos dizer assim. E aí está o primeiro ponto de relevância do documentário "A Noite de Alaíde", agora em cartaz nos cinemas.

Talvez, é apenas uma hipótese, Alaíde Costa seja delicada demais para um tempo tão indelicado, tão grosseiro quanto o atual. Mas ela já havia saído de moda há anos. Em 1988, ela gravou um álbum produzido por ninguém menos do que Milton Nascimento, mas passou longe do sucesso.

Foi desaparecendo, um pouco como sua amiga Claudette Soares, um pouco também como Johnny Alf. Ninguém dirá que eram pessoas sem talento; apenas não estavam muito de acordo com seu tempo. Então, "A Noite de Alaíde" serve como reparação ao estranho esquecimento de uma intérprete tão suave quanto original.

Mas não é esse o único ponto de interesse. Liliane Mutti, diretora do filme, supriu a deficiência de informações visuais com um recurso interessante: usou a animação para narrar a história da cantora, junto com a voz da própria e cenas de arquivo —por vezes muito ruins, diga-se, já que quase tudo vem de velhos e mal conservados tapes de TV.