Representantes da 'nova geração da MPB', os jovens cantores se apresentam no Doce Maravilha e falam ao GLOBO sobre a atualidade da obra do cearense e a força da cena musical contemporânea no Brasil 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Juliana Linhares e Chico Chico — Foto: Elisa Mendes e Zabenzi Se estivesse vivo, o cearense Belchior (1946-2017) completaria 80 anos em outubro. Mas, de certa forma, ele está. Em 2019, o "AmarElo" de Emicida conquistou o Brasil com os versos de "Sujeito de sorte"; em 2021, Ana Cañas revisitou o repertório do artista em um dos 50 melhores discos brasileiros daquele ano, segundo a APCA. Isso sem falar nos relançamentos de discos e nas biografias do autor de "Apenas um rapaz latino-americano". Neste sábado (8), ele ganha mais uma homenagem: os amigos Chico Chico e Juliana Linhares celebram a força, a lucidez e a atualidade da sua obra em um show inédito no festival Doce Maravilha, no Rio de Janeiro. — Belchior nunca escreveu para confortar ninguém. Ele escrevia para inquietar. É isso que faz com que a obra continue tão viva. As perguntas que ele fazia ainda estão abertas: o que fazemos com os nossos sonhos quando a realidade é tão dura? Como envelhecemos sem envelhecer a nossa capacidade de desejar a renovação das coisas? — acredita Juliana. — Mesmo exausto e marginal, ele tinha sempre uma esperança voraz de transformação. E isso dialoga com o país que vive sempre numa corda bamba da necessidade de se sustentar politicamente, socialmente e artisticamente. Chico Chico concorda no que diz respeito às "críticas sociais que ainda cabem no mundo de hoje" e vai além: — Ele também retrata os acontecimentos e dilemas da vida, (que são) questões inerentes a qualquer pessoa, então as músicas sempre serão atuais. Além da memória afetiva que elas trazem. Belchior através do tempo 1 de 10 Belchior, em registro de 1983, ostentando um cachimboAgência O Globo 2 de 10 Belchior ao lado da cantora Lúcia MenezesAcervo O Globo X de 10 Publicidade 10 fotos 3 de 10 Em 2005, Belchior ao lado de Oswaldo Montenegro no lançamento do CD "Lonas acústico"Divulgação 4 de 10 Belchior em registro de 1982Agência O Globo X de 10 Publicidade 5 de 10 Belchior em 1994Agência O Globo 6 de 10 Belchior, em 1995, no Prêmio Sharp de Música, ao lado de Milton Nascimento e Angela Maria. Atrás, é possível ver Gal Costa e Jair Rodrigues Agência O Globo X de 10 Publicidade 7 de 10 Belchior no show "Todos os Sentidos", em setembro de 1978Agência O Globo 8 de 10 Belchior se tornou conhecido em meados do anos 70, quando virou ídolo de várias geraçõesDivulgação X de 10 Publicidade 9 de 10 Belchior posa em foto de 1991, no calçadão de Copacabana; em 2007, artista fez seu último show, em em Colatina (ES), antes de sair de cenaAgência O Globo 10 de 10 Belchior com os músicos Marcelo Camelo e Rodrigo Amarantes, do Los Hermanos, em junho de 2006Agência O Globo X de 10 Publicidade Belchior através do tempo Das marcas deixadas pelo artista, Chico destaca "a sinceridade nas letras e a sonoridade que ele e os artistas conhecidos como 'pessoal do Ceará' trouxeram para a música brasileira". Para Juliana, Belchior a ensinou que uma canção "pode fazer pensar": — Ela pode carregar filosofia, literatura, política e ser profundamente popular. Isso é uma das coisas que mais amo na obra dele: o quanto a voz pode ser um canto "feito faca", fazer denúncias e ser uma poesia muito verdadeira. Representante da "nova geração da MPB" — ou melhor, de uma das tantas novas gerações —, a potiguar Juliana, de 36 anos, tem conquistado crítica e público desde o começo da carreira. Seu trabalho de estreia, "Nordeste ficção", assim como o álbum de Ana Cañas com versões de Belchior, também esteve entre os 50 melhores álbuns brasileiros de 2021 da APCA. Recentemente, Juliana lançou "Até cansar o cansaço", álbum com uma regravação de... "A palo seco", de Belchior. Sobre a música brasileira feita hoje, a artista defende que é possível reverenciar a tradição sem acreditar que os melhores tempos ficaram para trás. — Como dizia o próprio Belchior, "o novo sempre vem". E o novo está aí, né? Eu não sou saudosista, não. Referencio a minha obra com o devido cuidado e reverencio os meus mestres e mestras da música brasileira. Acredito que a música está muito viva. O que mudou são os meios de fazer e de mostrar. Mas tenho muita certeza, desde que comecei, do quanto a gente, hoje, continua fazendo uma obra muito bonita da música brasileira. Tem muita gente fazendo música brasileira de qualidade, contemporânea — garante. E conclui: — Então acho que é mais sobre a gente buscar formas de fomentar e de colocar isso para as pessoas, assim como o Belchior conseguiu se tornar popular. As pessoas às vezes ficam com um pensamento equivocado porque consomem muito o que está sendo mais promovido, mas isso não quer dizer que a música morreu. Acredito muito na música brasileira hoje. Acredito porque vivo.
'Não sou saudosista. A música brasileira está muito viva', diz Juliana Linhares, que presta tributo a Belchior com Chico Chico
Representantes da 'nova geração da MPB', os jovens cantores se apresentam no Doce Maravilha e falam ao GLOBO sobre a atualidade da obra do cearense e a força da cena musical contemporânea no Brasil







