Essa história começa em 1978, quando minha tia Didi comprou o disco do rapaz da samambaia. Era assim que eu chamava, aos três anos de idade. Ele passava o dia sorrindo pra gente, pois a capa ficava posicionada em destaque no móvel da radiola. Ô bicho lindo, ela dizia, beijando a capa.

E eu concordava. Cresci com Chico cantando para nós. E me ensinando a organizar o pensamento em palavras.

Dito tudo isso, deixo o leitor preparado para me julgar um pouco menos ao contar que, quando estive em Paris para lançar "Oração para Desaparecer" em francês, decidi fazer o roteiro de Chico Buarque. Ser fã é estar disposta a tudo.

Comecei pela livraria preferida, no Marais. Falei em francês ruim com a livreira, disse que estava lá por causa do Chico Buarque, esperava que ela me contasse anedotas dele, mas não rendeu. Ela só passou minhas compras e pronto.

Levei pra casa um livro lindo do Fellini falando dos seus sonhos. Pedi para fazer uma foto e ela aceitou, meio sem graça. Deixei a senhorinha em paz e segui minha rota.