Alice Passos tinha 9 anos quando ouviu, pela primeira vez, “Choro bandido”, a canção de Edu Lobo e Chico Buarque. — Eu me lembro de ter ficado chocada com o verso “Saiba que os poetas podem ver na escuridão”. Pensei: “Uooou!” Daí foi Chico Buarque para sempre — conta ela, hoje com 35 anos. Em 2024, quando o compositor completou 80 — nesta sexta-feira (19) ele faz 82 — , Alice quis homenageá-lo de alguma forma. Reservou duas datas na Casa do Choro, no Rio, em outubro e, para pensar num show, chamou três amigos artistas que admira muito: Luisa Lacerda, Renato Frazão e Thiago Amud. Por sugestão de Amud, o quarteto se deu o nome de Escafandristas, palavra retirada da letra de “Futuros amantes”. Aquela experiência resultou no álbum “Escafandristas cantam Buarque” (Biscoito Fino), que chega às plataformas hoje, quando os artistas se apresentam às 20h (ingressos esgotados) e 22h no Teatro TotalEnergies, na Glória, Zona Sul carioca. O trabalho reúne 15 músicas — e algumas citações — que soam completamente diferentes do que se conhece. Na instrumentação, violões, um baixo, flauta em três faixas e sutis percussões. Alice resume a proposta: — Nenhum de nós queria reproduzir o que já foi feito. Luisa, de 34 anos, diz que já ouvia Chico Buarque desde criancinha, mas que a coisa ficou séria aos 11 anos, quando levou o disco “Construção”, em CD, para ouvir no quarto. “Chico Buarque é o cara”, pensou. A devoção continua, mas com liberdades que, em sua visão, conferem originalidade ao projeto dos Escafandristas. — Não temos muito medo de mexer na obra do Chico. Acho que ele já foi tão bem gravado por tanta gente, por ele e outros artistas, que tentamos fugir um pouco dos arranjos que já foram feitos. A gente se permite trazer um pouquinho das nossas referências para além do Chico, para criar uma sonoridade que seja a nossa cara também — diz a cantora e violonista. Capa de 'Escafandristas cantam Buarque' — Foto: Divulgação A relação de Amud, de 46 anos, com Chico começa antes de ele nascer. Seu pai lhe contou que uma vez foi acordado pela mãe (avó de Amud) dizendo: “Vem ver a coisa mais linda: um menino lindo cantando uma música linda.” Era “A banda” no Festival da Record de 1966. — Chico faz um arco amplo, que vai desde a música de banda até investigações harmônicas e poéticas das mais avançadas que se tem notícia na canção. Dentro do limite de uma música tonal, vai até o limite — exalta o cantor, compositor e violonista, que é o diretor musical dos Escafandristas. Ele faz coro com Luisa ao destacar que realizou alterações no ritmo e na harmonia das canções, mas sem mexer na melodia. E cita expedientes inesperados, como as vozes se sucedendo palavra após palavra, ou mesmo sílaba após sílaba. — Ser um pouco infiel ao fonograma original talvez seja a forma ideal de ser fiel à canção. O fonograma já gerou o nosso campo imaginário. Para chegar ao cerne da canção, tem que trair um pouco esse fonograma. Nada mais difícil do que fazer um arranjo para “Construção”. O arranjo do Rogério Duprat (de 1971) é quase uma parceria. Era preciso se desvencilhar da angústia da influência — afirma Amud, que contou com a participação de Chico em seu último álbum solo, de 2025. Frazão, de 43 anos, diz que a obra do artista é uma “memória antiga”, pois sua família ouvia bastante, a ponto de o passarinho da casa se chamar Chico. Para ele, o ídolo “sempre foi um grande modelo de compositor, de artista, de postura”. Ele ressalta o lado bom de o repertório do show e do álbum não ter um recorte temático fechado. — Não se tinha essa ideia de eleger o repertório a partir de um conceito. Não é o repertório ideal para nenhum dos quatro. Isso é o mérito. Ele foi aquilo que resultou da soma das vontades — diz Frazão, cantor, compositor e violonista, mas que assumiu o baixo no conjunto. Os quatro selecionaram cerca de 80 músicas e foram cortando até chegarem a 15. Couberam canções dos anos 1960 (“Morena dos olhos d’água”) aos 1990 (“Sonhos sonhos são”); mais conhecidas como “Cotidiano” a menos como “Frevo diabo” (parceria com Edu Lobo); sociais como “Brejo da cruz” — com participação do cantor Giuliano Eriston — e líricas como “Futuros amantes”. Em “O que será (À flor da terra)”, há a entrada de Ruy Guerra lendo versos de “Fado tropical”, parceria sua com Chico. Outras músicas incluídas são “Corrente”, “Morro Dois Irmãos”, “A ostra e o vento”, “Assentamento” e “Tempo e artista”. Participação de Chico Alice não queria perturbar o compositor, sabendo que ele não se sente à vontade em tributos. Mas queria tê-lo por perto do jeito que fosse possível. Ele acabou convencido a participar de “A volta do malandro”, estimulado pelo fato de que no coro estavam uma irmã (Ana de Holanda), filhas e netos. — Chamar o Chico, para mim, é uma validação do trabalho. Se o cara que está sendo homenageado topa participar, é o seguinte: isso foi bem feito — acredita Alice. Foi na casa de Luisa, filha mais nova de Chico, que os Escafandristas fizeram uma apresentação para ele e a família, incluindo sua ex-mulher, Marieta Severo. Chico ficou visivelmente emocionado e disse a Alice: “Sabia que ia ser bom, mas não sabia que seria tão bom.” Ainda mais emocionado ele ficou, em outro dia, quando ouviu a versão de “As minhas meninas” cantada por cinco de suas netas: Cecília, Clara, Irene, Lia e Teresa. — Como sei que ele é muito arredio, a única coisa que eu pensei como homenagem seria algo afetivo, e nada mais afetivo do que família — aponta Alice. Há outras apresentações marcadas depois das dessa quinta-feira: Clube do Choro, em Brasília (9/7); Acaso Cultural, em Botafogo, no Rio (31/7 e 1/8); e Casa Natura Musical, em São Paulo (14/8). O desejo é fazer shows em outras cidades do país e até do exterior, conciliando o grupo com as carreiras solo de todos.