Quando Elza Soares lançou o álbum A Mulher do Fim do Mundo (2015), aos 85 anos, a cantora dava mais uma reviravolta na sua carreira – a última, mas derradeira.

Foi o seu primeiro disco só de músicas inéditas. O trabalho, produzido por Guilherme Kastrup, trazia moderna sonoridade e canções de contestação e representatividade racial. Reuniu 11 faixas entre o samba, o rock e experimentações eletrônicas. As letras abordavam violência doméstica, feminismo, sexualidade, negritude e transexualidade.

É esse momento de transformação que a jornalista Lígia Moreli examina no recém-lançado Elza Soares: Insurreição na Garganta (Edições Sesc São Paulo, 160 páginas). Mestre em Comunicação e Semiótica e gestora de comunicação do Sesc São Paulo, a autora investiga a construção da estética política assumida pela cantora na etapa final de sua trajetória.

Elza Soares veio do “planeta fome”, como disse num programa de calouros, quando tentava a sorte na música, em 1953. A menina nascida numa favela da Zona Oeste do Rio de Janeiro, que perdeu aos 15 anos um filho (o segundo) em decorrência de inanição e sofreu violência doméstica e muito preconceito, teve altos e baixos na música e na vida.

Já na maturidade, reinventou-se a partir do disco Do Cóccix Até o Pescoço (2002). Mas foi em A Mulher do Fim do Mundo (2015) que o trabalho da cantora ganharia uma forte estética política – de acordo com o livro – ao interpretar canções insurgentes, num misto de revolta e celebração do poder feminino e negro.