Todos os segmentos, afetados diretamente ou não, devem ficar atentos aos próximos movimentos do presidente americano, defende Oliver Stuenkel Oliver Stuenkel: Não há como saber como Trump reagiria a possível reciprocidade — Foto: Divulgação Nem mesmo os setores isentos do tarifaço anunciado pelo governo americano na quarta-feira (15) podem cantar vitória, segundo Oliver Stuenkel, professor de relações internacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV). Na visão dele, todos os segmentos - afetados diretamente ou não - devem permanecer atentos aos próximos movimentos do presidente americano Donald Trump: “A essência do governo Trump é causar incerteza. Nem mesmo os setores isentos hoje podem descansar. O risco permanece”. Para o professor, uma possível reciprocidade do governo brasileiro abriria margem para uma espiral de trocas de farpas entre os países. “Não tem como saber de que maneira o governo Trump reagiria a uma possível reciprocidade. Mas a lição que tiramos dos últimos movimentos é que a melhor estratégia é uma resposta firme.” Por outro lado, o presidente do conselho curador do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), José Pio Borges, defende que o Brasil adote uma postura cautelosa diante da medida americana. Para ele, o governo pode recorrer à reciprocidade, mas deve evitar ampliar a tensão diplomática com Washington. “Não pode levar para o lado pessoal. Tem que responder da maneira adequada.” Na avaliação de Borges, uma eventual resposta do Brasil deve ser direcionada a setores com influência política sobre o Congresso americano, como os segmentos de açúcar e milho, aumentando a pressão interna sobre o governo Trump. O especialista considera que a reciprocidade pode ser utilizada, desde que de forma “inteligente”, e não como uma retaliação generalizada. Na avaliação do economista, a aplicação é “possível e desejável”. Borges também criticou a troca de declarações entre autoridades brasileiras e americanas após o anúncio das tarifas. Segundo ele, o endurecimento do discurso por ambos os lados dificulta as negociações e tem forte componente político. “Eu não estou entendendo muito essas trocas de insultos entre o governo brasileiro e o governo americano.” Apesar de defender cautela na reação diplomática, Borges avalia que o episódio fortalece a necessidade de empresas brasileiras de diversificar mercados. Para ele, reduzir a dependência dos Estados Unidos e fortalecer relações comerciais com outros parceiros são respostas mais efetivas do que ampliar o confronto. Eu não estou entendendo muito essas trocas de insultos entre o governo brasileiro e o americano” O presidente do conselho do Cebri também avalia que o perfil “transacional” do governo Trump faz com que o setor empresarial tenha mais influência do que a diplomacia sobre as negociações. “O governo Trump é muito transacional. Ele ouve mais empresas do que diplomatas.” Segundo Borges, a atuação de grandes empresas brasileiras com presença nos Estados Unidos ajudou a reduzir parte dos impactos das tarifas anunciadas pelo governo americano. O Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) incluiu 2 mil itens isentos do tarifaço de 25%, que vão se somar a outros que já estavam fora do alcance da taxação, como certos tipos de carnes, cafés, frutas, ferro e partes de aeronaves. A justificativa é que esses itens são insumos importantes para a indústria americana. Para Oliver Stuenkel, a fala de Mauro Vieira adota um tom correto ao articular a resposta ao governo americano. “Trump costuma reagir a pressões, e o Brasil é visto como exemplo em situações como essas. O Brasil é um dos poucos países que misturam autonomia estratégica e um peso econômico. Tentar agradar Trump, por exemplo, e deixá-lo cantar vitória não funciona.” Segundo o especialista, a avaliação nos bastidores das negociações é que, caso Lula seja reeleito, pode sair do radar do governo americano por um tempo. “Trump não quer entrar em um confronto permanente. Em algum momento, podemos ver uma estabilidade em um acordo. Se Trump perder a influência na Câmara dos Representantes, o espaço de manobra para ele fica muito restrito.” Para Stuenkel, há uma divisão no governo americano quanto à decisão de sobretaxar produtos brasileiros: “Há pessoas em posição-chave no governo que discordam de aumentar tarifa a produtos brasileiros. A percepção é que a medida pode enfraquecer a política americana e fortalecer a China.”
Tom da resposta brasileira a EUA por tarifaço divide especialistas
Todos os segmentos, afetados diretamente ou não, devem ficar atentos aos próximos movimentos do presidente americano, defende Oliver Stuenkel












