Há um instante raro no teatro em que a encenação consegue transpor a barreira da ficção e tocar diretamente a experiência coletiva da plateia. É nesse limiar que se estabelece "Donatello", monólogo musical estrelado e escrito por Vitor Rocha, com direção de Victoria Ariante.
O espetáculo propõe uma reflexão sensível e corajosa sobre o Alzheimer, ancorada em um recurso narrativo tão singelo quanto profundo: a vida como um sorvete que derrete sob o calor implacável do tempo. Longe dos grandes aparatos tecnológicos, a montagem aposta na economia de elementos cênicos – uma mesa, uma cadeira, uma bicicleta e um pianista em cena – para construir uma atmosfera de intimidade que potencializa o impacto emocional da narrativa.
A trama acompanha o amadurecimento de um menino diante da primeira crise do avô, vítima da doença neurodegenerativa. Ao perceber que o idoso já não reconhece seu nome, mas preserva a memória gustativa do sorvete de amendoim e coco branco, o neto arquiteta uma estratégia de resistência afetiva: codificar todas as lembranças significativas da própria vida em sabores.
A premissa, embora poética, encontra respaldo na ciência ao explorar a estimulação sensorial como possível gatilho para a memória, ainda que a dramaturgia não se proponha a um tratado médico, mas a uma investigação sobre os limites do amor diante do esquecimento.







