Sistema de filmagens e projeção em alta resolução entra em evidência com estreia de longa pioneiro de Christopher Nolan, que ostenta marcos como ser o 1º todo filmado no formato Imax; ‘Imersão capaz de colocar o público dentro do filme’ 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Christopher Nolan com diretor de fotografia Hoyte van Hoytema nos bastidores das filmagens de 'A Odisseia' — Foto: Divulgação/Melinda Sue Gordon/Universal Pictures RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você Com orçamento de US$ 250 milhões, o novo longa de Christopher Nolan foi filmado inteiramente no formato Imax 70mm, utilizando uma câmera inédita e mais silenciosa desenvolvida especialmente para a produção. O Brasil possui atualmente 12 salas Imax distribuídas pelas regiões Nordeste, Sudeste e Sul, mas nenhuma delas é capaz de exibir o longa em seu formato original de película Imax 70mm. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO “Feche os olhos e veja.” A frase presente em “Ulisses”, clássico literário de James Joyce inspirado na “Odisseia”, de Homero, é um convite a uma experiência sensorial, para que seu personagem (e leitor) tente abstrair distrações visuais e compreenda melhor a situação e o Universo. Agora, 104 anos após a publicação do romance que mudou a literatura moderna, chega hoje aos cinemas “A Odisseia”, nova adaptação da obra homérica com um convite diferente: “Abra os olhos” — já que a criação atual é em Imax. Concebido pelo premiado diretor, roteirista e produtor Christopher Nolan, o longa é uma das mais ambiciosas produções da história da sétima arte. Orçada em US$ 250 milhões (ou R$ 1,286 bilhão), a obra foi pensada pelo realizador para ser contemplada na tela grande dos cinemas. Quanto maior, melhor. Para “A Odisseia”, Nolan, em sua quinta colaboração com o diretor de fotografia Hoyte van Hoytema, adotou filmes Imax 70mm, formato usado pela primeira vez para uma obra inteira de ficção. O diretor já havia rodado cenas em Imax para vários longas, começando com “Batman: O Cavaleiro das Trevas” (2008). Repetiu a dose em “A origem” (2010), “Interestelar” (2014), “Dunkirk” (2017) e “Oppenheimer” (2023). Mas o peso e o barulho saído da câmera em operação impediam o uso nos filmes inteiros. Christopher Nolan dirige Matt Damon e Zendaya durante as filmagens de "A Odisseia" — Foto: Divulgação/Melinda Sue Gordon/Universal Pictures Os ruídos de filmagens eram tão altos que não permitiam o registro de cenas íntimas de diálogos. Sabendo disso, Nolan desafiou a Imax a produzir uma nova câmera. A empresa criou a The Keighley (nome em homenagem ao casal David e Patricia Keighley, amigos de Nolan que se dedicaram ao aperfeiçoamento de filmagens em Imax por mais de 50 anos), bem mais leve e ágil. Além disso, ainda desenvolveram uma caixa acústica apelidada de “blimp”, que reduz significativamente o barulho produzido. Nova câmera especial Mas, com o “blimp”, a câmera ficava tão grande que interferia no posicionamento dos atores em cena e atrapalhava o contato visual entre eles. Intérprete de Antínoo, o líder dos pretendentes de Penélope (Anne Hathaway), Robert Pattinson, num vídeo dos bastidores, chegou a brincar: “É como gravar uma cena com uma SUV no meio do set”. Para driblar a SUV, a equipe desenvolveu um sistema de espelhos que, acoplados ao “blimp”, faziam com que os atores se vissem em cena. — Filmar em Imax proporciona uma imersão diferenciada, pelo tamanho da tela e pela razão de aspecto (1.90:1, formato ligeiramente mais alto do que as proporções widescreen tradicionais do cinema, preenchendo mais o campo de visão vertical da plateia). Isso transmite ao espectador uma sensação e uma viagem totalmente diferente do que uma tela convencional — destaca Adrian Teijido, diretor de fotografia de “Ainda estou aqui” (2024). — Além disso, há o fato de ser filmado em película num formato (70mm) que tem a qualidade 10 vezes superior do que um aspecto de 35mm convencional, o que oferece uma resolução, uma sensação e uma nitidez maior. A película oferece ainda uma textura maravilhosa, que, com o grão, se aproxima muito mais da visão humana do que o suporte digital, composto por pixels. Para um diretor de fotografia, é um trabalho fascinante. Estou contando os dias para poder assistir. Cinéfila assiste ao trailer de "A Odisseia" em sala Imax no Rio — Foto: Marcelo Theobald /Agência O Globo Teijido destaca o trabalho em “Dunkirk” como uma virada de chave na obra de Nolan e Hoytema com o Imax. O longa, que foi 70% rodado no formato, também chamou a atenção do escritor Pablo Savalla, que lança em breve o livro “O poder esmagador do cinema” (Grupo Editorial Triz), sobre como tecnologias como o Imax transformam a experiência do espectador, tendo como base principal a filmografia de Nolan. — Quando assisti a “Dunkirk”, virou uma chave na minha cabeça. Foi um filme que me deixou exausto, como se eu tivesse vivido a experiência daqueles soldados. Acabei fazendo meu trabalho de conclusão de curso superior sobre isso e continuei pesquisando sobre o tema — conta Savalla. — É impossível falar de Imax sem falar de Nolan. Eles têm uma parceria de quase duas décadas. Ele sempre busca essa imersão capaz de pegar o público e colocá-lo dentro do filme. E isso acontece no Imax, seja pelo tamanho da tela, seja pela qualidade da imagem e do som. Viagens para sessões Savalla recomenda que “A Odisseia” seja visto na maior tela possível e lamenta que no Brasil não exista nenhuma sala capaz de exibir o longa em seu formato original: Imax 70mm. Em todo o mundo, serão apenas 41 cinemas exibindo essa versão, a mais próxima da idealizada pelo cineasta. Ingressos para estas sessões, nos Estados Unidos, chegaram a se esgotar um ano antes do lançamento da produção. Nas redes sociais e na imprensa americana, há relatos de pessoas pegando voos e atravessando os EUA para assistir ao longa numa sala com projeção 70mm. Entre os depoimentos sobre o assunto, a editora de tecnologia Amber Connaghan disse à revista Variety que adiou os planos de engravidar no final do ano passado para não correr o risco de o parto acontecer perto do lançamento do filme. Hoje, a projeção no Brasil é quase 100% digital, com exibições em 35mm reservadas a sessões especiais e mostras cinematográficas. Por causa disso, a projeção que mais se aproxima da visão de Nolan poderá ser encontrada em cada uma das salas Imax espalhadas pelo país. Em três regiões O Brasil conta hoje com 12 salas Imax distribuídas entre três regiões do país: Nordeste, Sudeste e Sul. São Paulo é a cidade com maior número de salas, com um total de três, enquanto o Rio tem apenas uma, na Barra da Tijuca, Zona Sudoeste da cidade (no box abaixo, uma lista com todas as salas Imax do país). Os valores dos ingressos para o formato variam entre R$ 32 no UCI Orient do Shopping da Bahia, em Salvador (preço da inteira entre segunda e quarta-feira), e R$ 74 no Cinépolis do JK Iguatemi, em São Paulo (inteira entre quinta e domingo). — A tecnologia Imax combina sala de cinema com design personalizado e sistemas de imagem e som de última geração. “A Odisseia”, por exemplo, será exibido integralmente na Proporção Expandida Imax de 1.90:1. Isso significa que a imagem irá preencher todo o campo de visão do espectador, numa tela que cobre do chão ao teto — explica Monica Portella, Diretora de Marketing da UCI, a rede que tem mais salas Imax em operação no país, um total de cinco. O publicitário Rafa Gonzaga tratou de garantir seu ingresso no primeiro momento possível, em junho. — Estou bem empolgado com “A Odisseia” e fiz questão de garantir meu ingresso no primeiro dia em que as vendas abriram. Sabia que seria um dos grandes eventos cinematográficos do ano e não queria correr o risco de ficar sem um bom lugar — diz o cinéfilo. — Em vez de depender apenas de computação gráfica, Nolan costuma construir elementos reais para que atores e público sintam o peso daquele mundo. Para uma história mitológica, isso pode trazer uma sensação mais física e realista. Faço questão de assistir em Imax justamente por essa experiência imersiva. É um filme concebido para esse formato e quero vê-lo da maneira mais próxima da visão do diretor. Matt Damon e Zendaya em cena de " A odisseia" — Foto: Melinda Sue Gordon/Universal Pictures ‘Emoções diferenciadas’ Já o cineasta e fotógrafo Walter Carvalho lembra que, além do espetáculo visual e tecnológico, o filme precisa de uma história que garanta a experiência. — O cinema nasceu mudo e em preto e branco, depois ganhou cor, som e infinitas possibilidades. As tecnologias Imax, 70mm e IA são apenas novas ferramentas. Toda história pode ser contada em Super 8 ou com smartphone. Se houver história, existe narrativa. E só a narrativa torna possível a experiência do homem no tempo e no espaço. É a linguagem soberana — defende o diretor de fotografia de filmes como “Central do Brasil” (1998) e “Madame Satã” (2002). — O drible genial de Garrincha com a bola de couro é tão desconcertante quanto o de Michael Olise com a bola sintética e chipada. Adrian Teijido reforça que o Imax é uma “mídia diferenciada que causa emoções diferenciadas”, mas que isso não significa que a pessoa que assistir ao longa numa sala tradicional terá uma experiência ruim. — A adaptação para os cinemas é considerada ainda durante as filmagens. Os enquadramentos são pensados levando em conta o Imax, mas também o formato padrão — explica Teijido.